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O Irã entre a força do Estado e o cansaço da sociedade

O Irã atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente. Os protestos que se espalham pelo país desde o fim de 2025 representam o maior teste ao regime teocrático desde a Revolução Islâmica de 1979. Mais do que uma crise episódica, o que se vê é a manifestação explícita de um impasse estrutural: um Estado forjado sob a lógica do cerco permanente e uma sociedade que mudou profundamente, social, cultural e economicamente, sem encontrar canais legítimos de expressão política.

A repressão violenta às manifestações, o bloqueio quase total da internet, as prisões em massa e a execução iminente de manifestantes como Erfan Soltani, de apenas 26 anos, expõem a face mais dura de um sistema que responde ao dissenso com medo e força bruta. Mulheres, jovens e trabalhadores precarizados ocupam o centro dessa mobilização, denunciando não apenas a crise econômica, mas a ausência de liberdades individuais, a opressão de gênero e a distância crescente entre o poder e a vida real da população.

É fundamental diferenciar, de forma honesta, o regime iraniano de sua sociedade. O povo iraniano não se confunde com a elite política e religiosa que governa o país. Trata-se de uma população urbana, jovem, altamente escolarizada e conectada ao mundo, que carrega uma herança cultural milenar e aspira dignidade, direitos e futuro. Reduzir o Irã a estereótipos religiosos ou ideológicos é não apenas injusto, mas intelectualmente preguiçoso.

Ao mesmo tempo, qualquer análise responsável precisa reconhecer o peso decisivo do cerco econômico imposto ao país. As sanções internacionais, lideradas pelos Estados Unidos e sustentadas pela centralidade do dólar no sistema financeiro global, não são abstratas nem neutras. Elas produzem inflação crônica, desvalorização da moeda, desemprego, escassez e deterioração dos serviços públicos. Não derrubam regimes; reorganizam a economia de forma regressiva. Quem sofre não são os círculos do poder, mas os cidadãos comuns: mulheres, aposentados, jovens e trabalhadores.

Esse contexto ajuda a explicar por que protestos inicialmente econômicos rapidamente se transformaram em contestação política. A promessa de abertura via acordo nuclear fracassou; O isolamento aprofundou a crise social; e a repressão fechou ainda mais os canais de diálogo. O resultado é um Estado que se sustenta pela coerção e uma sociedade que já não reconhece nele um pacto legítimo.

A morte de Mahsa Amini, em 2022, foi um divisor de águas. Símbolo da violência institucional contra mulheres, ela escancarou para o mundo a brutalidade de um sistema que controla corpos e silencia vozes em nome da moralidade. Desde então, a resposta do regime tem sido endurecer, o que apenas amplia o abismo entre governantes e governados.

No plano internacional, o risco é cair em falsas escolhas. Denunciar o autoritarismo interno não significa legitimar sanções, intervenções militares ou aventuras geopolíticas. Tampouco criticar o imperialismo externo pode servir de álibi para silenciar diante de execuções, tortura e repressão. Autoritarismo não é anti-imperialismo. Sanções não são política humanitária. E soberania que não se traduz em justiça social tende a se esvaziar.

O Irã hoje é um espelho incômodo do mundo contemporâneo: um país sob guerra econômica permanente, governado por um sistema que responde à pressão social com violência, enquanto sua população paga o custo de disputas que não escolheu. A comunidade internacional precisa abandonar tanto a retórica belicista quanto a hipocrisia seletiva. E o jornalismo tem o dever de informar, contextualizar e humanizar, sem sensacionalismo e sem simplificações.

Defender o povo iraniano é afirmar, simultaneamente, o fim da repressão interna e o fim do cerco econômico externo. Direitos humanos, dignidade e liberdade não são negociáveis nem divisíveis. Qualquer análise que sacrifique um desses pilares em nome dos outros falha em compreender a profundidade da crise e trai aqueles que, nas ruas do Irã, seguem arriscando a própria vida para reivindicar algo básico: o direito de viver com dignidade.

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