Famílias culpam greve na anestesia por morte e atraso em cirurgias na Santa Casa
Familiares de pacientes internados na Santa Casa de Campo Grande responsabilizam a falta de médicos anestesistas e ortopedistas, provocada pelo atraso no pagamento de salários, pela morte de um idoso de 88 anos e por cirurgias que seguem empacadas, mesmo em casos graves. Segundo os relatos, profissionais deixaram de comparecer ao hospital por não terem recebido, o que teria comprometido diretamente o atendimento. Em nota, a Santa Casa reconhece que o atraso nos pagamentos resultou na redução do contingente de anestesiologistas, impactando a capacidade técnica e operacional do hospital. A instituição afirma que cirurgias eletivas estão temporariamente suspensas e que procedimentos de urgência e emergência seguem sendo realizados conforme avaliação médica e critérios de gravidade. Um dos casos envolve um idoso de 88 anos que morreu na noite de sexta-feira (16), após permanecer dias internado aguardando uma cirurgia na mão. Ele sofreu uma queda e teve fratura exposta no dedo, sendo hospitalizado desde segunda-feira (12) sem passar pelo procedimento. De acordo com Márcio Gomes Ramos, a espera agravou o quadro clínico. “Meu tio pegou infecção hospitalar por esperar uma cirurgia desde segunda, com o osso do dedo para fora. Ele morreu esperando uma cirurgia simples”, afirmou. O sobrinho também destacou o impacto da perda para a família e cobrou responsabilização. “Meu tio foi um homem muito bom, era feliz, alegre, cercado de amor por toda a família. O caso será investigado pela polícia e, se realmente for provado que houve omissão, nós não vamos ficar calados até que o médico perca o CRM”, declarou. Sem respostas do hospital, a família registrou boletim de ocorrência neste sábado (17), denunciando a Santa Casa por omissão de socorro. O caso será apurado pela Polícia Civil. Outro relato é de um autônomo de 43 anos, que pediu para não ser identificado e está internado na Santa Casa há mais de uma semana com cirurgia empacada. Ele deu entrada no hospital no último domingo (11), de ambulância, após sofrer um acidente de carro, e relata agravamento diário do estado de saúde. “Quebrei quatro costelas. A parte interna do peito, que sustenta o tórax e o pulmão, está instável e preciso colocar parafusos. Não consigo falar direito, sinto falta de ar e parece que está tudo solto dentro do meu peito. Estou há dias à base de remédio para dor”, relatou. Segundo o paciente, a cirurgia chegou a ser marcada; ele ficou em jejum, mas o procedimento foi novamente suspenso nesta segunda-feira (19) após o médico informar que o centro cirúrgico não foi liberado. Ele afirma que profissionais do próprio hospital relataram a falta de anestesistas e disseram que parte da equipe deixou de comparecer por causa do atraso nos salários. Ainda conforme o relato, apenas três dos 14 centros cirúrgicos estariam funcionando atualmente. “Eles falam que não é segredo, que alguns anestesistas não vêm porque não estão recebendo. Eu pago plano de saúde e não tenho nada a ver com isso. Estou com dor, com dificuldade para respirar e esperando”, desabafou. Em nota oficial, a Santa Casa informou que está adotando medidas de priorização das cirurgias conforme a gravidade e emergência dos casos, reforçando o compromisso com a segurança dos pacientes em situação crítica. O hospital não se manifestou especificamente sobre os relatos. O espaço segue aberto.