A marcha da burrice organizada
A chamada “marcha pela liberdade” dos bolsonaristas é, na prática, uma procissão de contradições, ignorância política e profundo desprezo pelo país real. Não se trata de um movimento por justiça — é uma encenação grotesca em defesa de um presidiário condenado por crimes contra o Estado Democrático de Direito, que tentou rasgar a Constituição quando perdeu a eleição e hoje paga, ainda que modestamente, pelo que fez.
Os marchadores dizem lutar por “liberdade”, mas pedem a soltura de alguém que atacou instituições, incentivou uma tentativa de golpe, flertou com planos de assassinato de adversários políticos e governou com absoluto desprezo pela vida durante a maior crise sanitária do século. O resultado está nos números: centenas de milhares de mortos, uma tragédia agravada por negacionismo, sabotagem da ciência e propaganda irresponsável. Isso não é opinião — é história recente.
O mais obsceno é que Jair Bolsonaro não está em nenhuma masmorra. Está preso em condições que milhões de brasileiros honestos jamais terão, vivendo com conforto, cuidados médicos e regalias incompatíveis com a realidade do sistema prisional que ele próprio ajudou a destruir enquanto presidente. Ainda assim, seus seguidores se comportam como se ele fosse um mártir torturado por uma ditadura imaginária.
Mas o episódio ganha contornos ainda mais patéticos quando se observa o efeito prático da tal caminhada. Segundo bastidores relatados pela própria imprensa, havia um canal de diálogo aberto com o STF, conduzido por aliados mais pragmáticos, que poderia resultar numa progressão de regime. O que fizeram os “gênios” da política bolsonarista? Foram às ruas hostilizar o Supremo, ressuscitar a retórica golpista e, como bônus, enterrar qualquer chance imediata de Bolsonaro ir para casa.
É o retrato acabado da incompetência: gente tão burra que, quando tenta ajudar, atrapalha. Gente que confunde gritaria com estratégia e rede social com política de verdade. Não à toa, até ministros do STF ironizam que, com aliados desse nível, Bolsonaro realmente não precisa de inimigos.
E como se não bastasse o vexame político, há o desprezo cotidiano pelo cidadão comum. A marcha atrapalha o trânsito, bloqueia estradas, prejudica trabalhadores e comerciantes — exatamente aqueles que eles dizem defender. Para completar o absurdo, o espetáculo conta com escolta policial, desviando viaturas e agentes que deveriam estar combatendo crimes reais, protegendo a população, não servindo de babá para manifestação ideológica que flerta abertamente com o autoritarismo.
É um Brasil às avessas: quem ataca a democracia se diz perseguido; quem desprezou a vida exige compaixão; quem sabota instituições reclama de “excessos”; quem cria o caos reclama da ordem.
No fim, a tal marcha não é pela liberdade. É pela impunidade, pela irresponsabilidade e pela recusa em aceitar a realidade: Bolsonaro não é preso político, é político preso. E seus seguidores, longe de ajudá-lo, seguem fazendo aquilo que fazem de melhor — provar, passo a passo, que o bolsonarismo é um movimento incapaz de aprender, refletir ou evoluir.
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