Mais que tolerância religiosa... respeito e amor fraterno
Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece, principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Esta fala é de Riobaldo, o narrador e o protagonista de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Ele disse uma vez: Riobaldo é o Brasil. Para ele, a brasilidade, ainda que inefável e indefinível, deixa-se captar como um sentir-pensar. Neste, vigora não a lógica da razão, mas a sabedoria do coração. A religiosidade é um assunto poético. A sabedoria do coração é um saber, que é o saborear do mistério do ser. Desta experiência, a religiosidade emerge como um espetáculo de realizações plurais. O mistério de ser é cada vez singular e universal. Mas as experiências da religiosidade que dele emerge são plurais. Nesta pluralidade, as diferenças, mais que toleradas, carecem de ser respeitadas e, mais ainda, amadas. A intolerância religiosa é incapaz de experimentar a verdade plural da religiosidade. Ela reduz a verdade a correção e a certeza. É sectária e excludente. A experiência da verdade plural da religiosidade, porém, toma a verdade como o espetáculo da manifestação do mistério do ser, cuja identidade nunca é a igualdade homogeneizadora, mas a irrupção das diferenças em suas riquezas. É que a história não se faz com a exclusão das e contra as diferenças. Nela, todo o direito é plural, pois provém da capacidade de diferenciação entre os seres humanos. Na história, a unidade não é uniformidade, mas harmonia polifônica das diferenças. A identidade não é igualdade, mas copertença das diferenças. Mais que a tolerância e o respeito, é o amor que promove a unidade na diversidade e a identidade nas diferenças. A religiosidade se dá na unidade mística da realidade humana e se realiza na pluralidade das tradições religiosas, que, cada vez singularmente, correspondem às inquietações do coração humano face ao mistério do ser e aos enigmas da existência. Correspondem em mitos e ritos diversos. O raio de luz da verdade (revelação) do ser, ao incidir no prisma da experiência humana, se decompõe numa policromia riquíssima. Se os seres humanos caminham da tolerância e do respeito para o amor fraterno, então o diálogo, em meio à convivência plural, não se torna mera tática, mas um modo de vida, um caminho da sabedoria do coração, que transforma tanto quem escuta como quem fala. Quem, desde o amor, percorre o caminho de sua própria fé, não a abandona por e para se abrir às experiências de outros, nem exclui as experiências dos outros por e para permanecer fiel à dinâmica da própria experiência. Sabe que o caminho do diálogo não começa num meio-termo indiferente. Ele começa, antes, nas raízes profundas da experiência humana do sagrado e do divino. É daí que recebemos as forças para nos aproximarmos dos outros com o amor. O intolerante, o fundamentalista, é superficial. Por isso, incapaz de diálogo. Quem nutre-se das raízes profundas não ergue muros, mas pontes, entre os diferentes. Desde estas raízes, todos somos imbuídos de uma responsabilidade sagrada: a de libertar a convivência das correntes do preconceito, do egocentrismo, da raiva, do ódio, para a liberdade da verdade plural do amor. A oração só é autêntica, quando nasce do amor, seja qual for seu modo de realização.