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Médico também é avaliado pelo relógio

Existe uma cena comum nos consultórios médicos: pacientes sentados, olhando o relógio, tentando disfarçar a impaciência. Alguns já estão ali há uma hora. Outros, há duas. E ninguém sabe ao certo quanto tempo ainda vai esperar. Atrasos acontecem. Emergências existem. Intercorrências fazem parte da rotina médica. Isso é compreensível. O que não é compreensível é transformar o atraso em regra. Esta semana fui ao médico, agendei a consulta no dia do meu aniversário porque era a única opção disponível, e quando cheguei a atendente da clínica me falou: “vai demorar um pouquinho, porque o doutor ainda não chegou e tem três pessoas na sua frente aguardando”. Eu fiquei indignada, porque eu tinha compromisso, tinha organizado uma comemoração com a família. E falei isso claramente: “quem ele pensa que é para achar que o tempo dele é mais importante que o meu?” Existe uma cultura implícita e ultrapassada de que o tempo do médico vale mais do que o tempo do paciente. Como se quem está aguardando não tivesse uma agenda, compromissos, filhos para buscar, reuniões marcadas, prazos a cumprir. E cada minuto ali é um recado. E isso vale para todos os profissionais, mas com o médico isso foi normalizado por muito tempo.  Quando o profissional chega depois do primeiro paciente agendado, quando marca várias pessoas para o mesmo horário ou quando deixa a agenda “travada” ao longo do dia, não está apenas desorganizado, está comunicando algo sobre sua gestão, seu respeito e sua prioridade. Imagem profissional não se constrói apenas com diploma na parede ou currículo impecável. Ela se constrói no comportamento. Pontualidade é respeito. Organização é cuidado. Previsibilidade é segurança. Quando um paciente espera por duas horas sem qualquer atualização, o que ele sente não é apenas incômodo. Ele sente desvalorização. E essa sensação contamina toda a experiência, inclusive a percepção sobre a qualidade do atendimento. Em um mercado cada vez mais competitivo, no qual reputações são construídas e destruídas nas redes sociais, ignorar isso é um erro estratégico. O tempo do médico é valioso. Mas o tempo do paciente também é. Profissionais que entendem isso se destacam. Ajustam agendas, reduzem encaixes desnecessários, comunicam atrasos com transparência, treinam equipes para manter o paciente informado. Pequenas atitudes que fazem enorme diferença. Porque, no final, não é apenas sobre horário. É sobre respeito. Eu, particularmente, quando espero demais sem justificativa, dificilmente retorno. E sei que muitas pessoas pensam da mesma forma. Talvez esteja na hora de repensarmos essa normalização do atraso como privilégio de status. Nenhuma profissão autoriza descuido com o tempo do outro. E nenhuma imagem profissional é forte o suficiente para sustentar repetidas demonstrações de desorganização.

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