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Fátima Gavioli: “Gestão de Ronaldo Caiado prova que é possível fazer educação pública de qualidade. Quero ser deputada pra fazer mais pelo ensino e pelos professores”

Um dos nomes mais longevos do secretariado de Ronaldo Caiado, Aparecida de Fátima Gavioli Soares Pereira, mais conhecida como Fátima Gavioli, está à frente da Secretaria da Educação de Goiás desde 2019. Ela é aquariana, nascida no dia 5 de fevereiro, no Paraná. Filha de pais agricultores, ela já enxergava, desde muito nova, que a educação seria um meio de mobilidade social. O que realmente aconteceu.

Fátima Gavioli trabalhou como empregada doméstica e decidiu fazer faculdade. Ao longo da vida, não concluiu apenas um, mas três cursos superiores: Letras, Pedagogia e Direito. Após isso, fez pós-graduação em Gestão Pública pelo Centro de Liderança Pública de São Paulo e doutorado em Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul.

Não foi a primeira vez que geriu uma Secretaria de Educação. A convite do ex-governador Confúcio Moura (por sinal, goiano), Fátima Gavioli assumiu a pasta em Rondônia, entre 2014 e 2016. 

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Fátima Gavioli contou sobre a situação em que estava a Educação em Goiás em 2019, ano em que assumiu a pasta: escolas com telhados quebrados, sem ar-condicionado, com alimentação precária, professores com salários atrasados e sem motivação para novas qualificações. O cenário atual é outro. 

Em 2019, Goiás ostentava o primeiro lugar do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) com uma nota de 3.9. Hoje, esse índice é de 4.8 e a expectativa é chegar a 5. O programa Bolsa Estudo se tornou uma inspiração decisiva para o Pé-de-Meia do governo federal. Obras de 62 unidades que estavam paradas foram concluídas, seguindo o padrão século XXI. O Lyceu de Goiânia se tornou um colégio bilíngue, oferecendo a oportunidade de os estudantes aprenderem francês. A expectativa é que o modelo seja expandido para outras cidades goianas para ensinar outros idiomas, como mandarim, espanhol e inglês. Ao todo, mais de R$ 10 bilhões foram investidos durante a sua gestão. 

Fátima Gavioli deixa a secretaria no dia 31 de março e se apresenta como pré-candidata a deputada federal pelo PSD, partido liderado por Ronaldo Caiado. Caso seja eleita, pretende defender os anseios da classe, como lutar pela redução de dias de trabalho dos professores, que hoje são de 200 dias no país. Além de medidas de combate à violência contra mulher e em busca da equidade. Citada por muitos como uma grande puxadora de votos, Gavioli diz não acreditar nisso, mas vai trabalhar para convencer quem ainda não fez a sua escolha. 

João Paulo Alexandre — A senhora está à frente da pasta da Educação desde 2019, sendo uma das secretárias mais longevas no governo de Ronaldo Caiado. Qual foi o cenário que encontrou?

Antes de responder a sua pergunta, eu queria dizer que os dois secretários — porque os presidentes de agências não sei dizer — que estão há mais tempo no mesmo cargo somos Andréa Vulcanis (Meio Ambiente) e eu. Então, fico muito feliz de ver que duas mulheres estão no governo desde o dia 1º de janeiro de 2019 e vão ficar até o dia 31 de março, completando sete anos e três meses de gestão. É uma demonstração de valorização e representa força, conhecimento e sabedoria. Isso, para nós, mulheres, é muito importante, porque lutamos ainda por muito para estarmos em lugares de poder.

Encontrei, pedagogicamente falando, um Estado que estava em 1º lugar no Ideb, com nota 3,9. Do ponto de vista estrutural, a rede passou anos sem melhorias. Até então, Goiás contava com 100 escolas feitas de placas, unidades que eram de ensino integral, mas que não contavam com quadras ou refeitórios. Infraestrutura precária, com fiação antiga que inviabilizava o uso de ar-condicionado, o que, consequentemente, comprometia a instalação de laboratórios, por exemplo.

Para a rede funcionar, é preciso ter bons professores, mas, ao mesmo tempo, dar condições estruturais. E havia mais de três décadas que não se fazia qualquer investimento. Fiquei preocupada com o que vi, porque os professores estavam conseguindo manter o 3,9 em primeiro lugar no Brasil, mas, ao mesmo tempo, não estavam recebendo o suporte estrutural e pedagógico.

Um bom exemplo é que, em 2019, a Seduc não tinha um setor voltado à formação dos professores. Nós ativamos isso. Hoje, nós temos formação de professores de forma coletiva, quando a gente junta todos eles para discutir, para ouvir, para melhorar a política. Nós temos também formação individual nas regionais.

Ainda na questão física, nós tínhamos 62 obras de escolas que estavam paralisadas, unidades que seriam padrão século XXI, mas que estavam paralisadas há 15, 14, 13 anos. A comunidade não tinha mais esperança de vê-las concluídas. Era um show de placas colocadas dizendo que naquele espaço teria uma escola, talvez por finalidade eleitoreira, mas, dentro da Superintendência de Infraestrutura da Seduc (Supinfra), não existia projeto e muito menos processo aberto.

Escola padrão século XXI | Foto: divulgação

O pagamento dos professores também estava atrasado. Transporte escolar e aluguéis de prédios não estavam sendo pagos. O cenário não era dos melhores. O governador Ronaldo Caiado nos deu muita autonomia e, em tudo o que conseguiu economizar, ele deixou na Educação para podermos trabalhar.

João Paulo Alexandre — Qual é o cenário atual? Houve a substituição das escolas de placas por alvenaria? As obras paralisadas foram retomadas e concluídas?

As 62 escolas que estavam com as obras paralisadas foram concluídas, algumas com previsão de serem entregues nos próximos dias. Sobre as escolas feitas de placas: esse modelo de construção foi útil na época em que essas unidades foram implantadas, mas isso deveria ser, no máximo, por 10 anos. Em determinados horários do dia, a temperatura dentro da sala de aula pode chegar a 40, 50 graus.

Das 100 que existiam, nós fizemos a entrega de mais ou menos 60 novas escolas, e as demais serão entregues durante a gestão de Daniel Vilela. Por que não conseguimos fazer todas? Em primeiro lugar, porque tivemos empresas que venceram a licitação, mas não tocaram a obra. Isso gera a necessidade de fazer a rescisão unilateral, multar a empresa e abrir nova licitação. Estamos falando de um ano a dois anos de prazo para isso.

Até o final da gestão de Daniel Vilela, não haverá mais escolas de placa em Goiás. Desde 2019, já foram investidos mais de R$ 10 bilhões pelo governo estadual na Educação. 

Giovanna Campos — Um dos problemas graves nas escolas acaba sendo o bullying, e isso chegou a ser até tema da série “Adolescência”, que retrata como até mesmo os pais não sabiam o que acontecia dentro de casa. Diante desse problema, há um programa criado pela Seduc, o Ouvir e Acolher. Como está o andamento desse projeto? Realmente há um movimento de culpabilização de profissionais da educação diante desses casos?

Até três anos atrás, o Brasil, e, não diferentemente, na Seduc, só se falava sobre o tema no Dia do Combate ao Bullying. Só que combater o bullying tem que ser uma luta diária. Essa campanha deixou de ser pontual para se tornar rotineira. Mas estamos tendo uma outra problemática perante a sociedade: os familiares, antes mesmo de saber do processo, utilizam as redes sociais para culpabilizar gestores, coordenadores e professores.

É humanamente impossível o gestor de uma escola que tenha mil alunos saber o que está acontecendo na cozinha, na área de convivência, na quadra, dentro de cada uma das 12 salas de aula, em todos os espaços dela. É como se você estivesse exigindo que ele fosse um super-herói. Às vezes, a família tem dois filhos e não consegue cuidar dos dois; ela quer que eu cuide de 500 a mil alunos. E alguns pais têm ido às redes sociais culpabilizar, expor a pessoa, com uma necessidade de dizer que quer Justiça, mas prevalece um desejo de abrir um processo contra o Estado.

Os professores estão cansados disso, e é muito perigoso esse comportamento, porque já é uma profissão em que existe um desgaste mental tremendo, ainda mais agora, com esse excesso de culpa jogada para cima dos profissionais da Educação. Me preocupo muito com isso, porque está passando dos limites e nós, enquanto sociedade, não estamos fazendo jus à prerrogativa de que ninguém pode ser considerado culpado até que haja o trânsito em julgado. Daqui a pouco, ninguém mais vai querer ser professor.

“Estamos tendo uma outra problemática perante a sociedade: os familiares, antes mesmo de saber do processo, utilizam as redes sociais para culpabilizar gestores, coordenadores e professores”, diz Gavioli | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

João Paulo Alexandre — O maior programa social que existe é uma educação pública de qualidade porque ela se torna inclusiva. A senhora concorda com essa afirmação?

Concordo e vou acrescentar: o maior programa social é a educação, porque é o único instrumento que promove a mobilidade social. O que seria isso? Vou dar o meu exemplo: nasci em uma pequena cidade do interior do Paraná, de família pobre, filha de um casal de agricultores. Trabalhei como empregada doméstica e fui a primeira da minha família a fazer faculdade. Depois, minhas irmãs fizeram, sobrinhos, filhos…

Isso é mobilidade social. É quando você é um exemplo de alguém que se esforça, faz um curso superior, arruma um trabalho, e a família entende que é possível trilhar o mesmo caminho por meio dos estudos. A educação muda a condição social. Uma pessoa que sempre ganhou um salário-mínimo passa a estudar, faz um concurso, é aprovada e consegue uma renda de R$ 7 mil. Por isso, é importante olhar para a educação com esse perfil de mobilidade social.

João Paulo Alexandre — Foram criados alguns programas sociais na gestão de Ronaldo Caiado, como o Bolsa Estudo e o Aprendiz do Futuro que, apesar de não ser da alçada da Seduc, o participante tem que estar matriculado e ter frequência nas aulas. De certo modo, como esses programas contribuíram para manter os alunos em sala de aula?

A educação tem um trabalho muito próximo da assistência social no governo. Existe um programa em Goiás, o Fundo Protege, que é para onde levamos as nossas demandas. Então, se precisamos comprar uniformes para os estudantes da rede, o recurso vem desse fundo; a merenda escolar teve reajuste, e o Protege compra essa alimentação com a atualização desse valor. Então, preciso fazer jus à primeira-dama Gracinha Caiado, a presidente do Fundo Protege, porque, como secretária, nunca ouvi uma negativa ao apresentar uma demanda ao Protege. Todas as melhorias que apresentei e que se encaixavam dentro do Protege foram aprovadas pelos conselheiros, sob a presidência dela.

O Bolsa Estudo já está dentro do recurso que é repassado à Seduc. Ele mudou a realidade de Goiás porque abrange alunos do 9º ano e de todo o ensino médio, e o estudante tem que ter nota e frequência. Se não tiver, dentro de um referido mês, ele não recebe. O dinheiro fica depositado, mas ele não tem acesso. No outro mês, faz a recuperação, apresenta uma nota melhor ou a frequência dele retorna, aí recebe o valor do mês, mais aquele que estava retido. Mas reforço: não é pago caso o aluno não tenha frequência e nota.

É diferente do que acontece no Bolsa Família, por exemplo. O governo federal exige que a criança esteja matriculada, mas não acompanha se realmente está sendo mantida. Matricular não é difícil; eu quero ver é acompanhar. É preciso que ele esteja matriculado e que tenha aprendizagem. O Bolsa Estudo garante isso. Então, as políticas sociais estão cada vez mais associadas à nossa educação.

Giovanna Campos — Essas estratégias têm funcionado para combater a evasão escolar? Como estão os índices hoje em Goiás?

Hoje, o nosso índice de participação está em 93%. Ou seja, apenas 7% dos alunos, por um motivo ou outro, acabam evadindo durante o ano. O nosso índice é bom, até mesmo porque o Bolsa Estudo assegura isso, e os alunos se sentem motivados a estudar. A entrega dos uniformes, tênis, mochila, material escola também ajudou muito.

Quando assumimos, em 2019, a alimentação estava em R$ 1. Hoje, na escola regular, a alimentação está quase em R$ 5, e, na escola de tempo integral, já passou dos R$ 10. Isso permite que o gestor faça uma comida de verdade, porque a gente sabe da importância de uma boa alimentação na vida e no dia a dia desses estudantes. Não é um chá com biscoito ou arroz doce. É comida.

Gracinha Caiado tem um ditado que adotei para mim: criança com fome não aprende. E é verdade. Nós estamos nesta conversa e, se começa a te dar fome, você fica ansioso para que acabe rápido. Imagine um aluno com fome? Em Goiás, tem algumas cidades em que o transporte escolar desse aluno até a escola é longo. Tem estudantes que saem às 5h30 da manhã para estar na escola às 7h. Ele entra na sala de aula e só vai ter o lanche às 9h. Ou seja, quase quatro horas sem comer nada. Então, eu vejo, e já estou fazendo isso em lugares de difícil acesso, que vamos precisar pensar em um café da manhã para todo mundo na chegada. A forma de fazer isso é aumentando sempre o valor da merenda escolar.

“Apenas 7% dos alunos, por um motivo ou outro, acabam evadindo durante o ano”, afirma secretária de Educação | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

João Paulo Alexandre — O Bolsa Estudo contribuiu, de certa forma, para a criação do Pé-de-Meia pelo governo federal?

Sim. Sou muito amiga do ministro da Educação, Camilo Santana, e o governador Ronaldo Caiado também. Quando assumiu o ministério, Camilo pediu para que a equipe do Pé-de-Meia viesse a Goiás para conversar com a nossa equipe. Esse pessoal ficou por aqui durante uns dez dias. E, sempre que vou a Brasília, o ministro e sua equipe nos agradecem pela ajuda. Então, tem algumas coisas em que tivemos participação direta, como o fato de cobrar frequência e aprendizagem. Foi uma coisa que sugerimos para eles.

Mas o Brasil não tem orçamento para o Pé-de-Meia. Ele foi criado para atender alunos do ensino médio. Agora, foi estendido para acadêmicos de universidades. Não saberia explicar em que condição, mas o orçamento não permite esse Pé-de-Meia da forma como está atualmente. O dinheiro para o programa está vindo hoje do repasse para as escolas integrais. Esse repasse ficou comprometido, porque o governo federal precisa pagar o Pé-de-Meia. Não tem orçamento novo. Qualquer programa que seja criado precisa repassar ao Ministério da Economia de onde virá esse dinheiro. Hoje, o Pé-de-Meia é custeado pela educação integral.

João Paulo Alexandre — O Ceará acaba sendo o nosso principal “rival” quando se fala em educação de qualidade? E tanto o Estado do Nordeste quanto Goiás se tornaram inspirações para outros Estados brasileiros nesta área?

Sim. O AlfaMais Goiás foi inspirado na alfabetização de Sobral. A gente foi conversar com o ex-prefeito da cidade Veveu Arruda, que também é professor, e trouxemos de lá o modelo de alfabetização, que é um sucesso. Inclusive, recebemos uma boa notícia do ministro Camilo: Goiás conta com 80% das crianças alfabetizadas na idade certa. Isso significa que batemos a meta que era prevista para 2030. Na pandemia, esse índice chegou a 25% e, hoje, estamos em 80%. Nós estamos fazendo recomposição de aprendizagem. Eu não tenho nenhuma dificuldade em dizer que foi uma iniciativa de Veveu como prefeito de Sobral, que não foi descontinuada por outros governantes e que só foi melhorando ao longo do tempo.

Goiás se confirma como um modelo de ensino médio. É interessante porque o Ceará vem com a alfabetização, e nós, com o ensino médio. Eu recebo equipe técnica do Brasil inteiro na Seduc, e nós recebemos com muita alegria, da mesma forma que fomos bem recebidos quando vamos a outros Estados.

Giovanna Campos — Sobre ensino integral: qual a quantidade de escolas existentes? E qual tem sido a importância desse tipo de ensino, principalmente para famílias em situação de vulnerabilidade?

Goiás conta com 948 escolas estaduais em Goiás, sendo 263 de ensino integral. Ao todo, são 486 mil matrículas, sendo que 25 mil estudantes no ensino integral. Mas, quando falo que tenho 263 escolas de tempo integral, na verdade, já temos 775 escolas com jornada ampliada. Isso significa que, quando a aula termina, o estudante não vai para casa. Ele almoça e pode fazer oficinas disponíveis na unidade, mas não é uma escola de tempo integral.

A diferença é que a escola de tempo integral tem uma proposta pedagógica diferente. O aluno sai muito mais preparado, tanto para o mercado de trabalho quanto para o empreendedorismo, assim como, por meio dos itinerários adotados, o estudante pode trabalhar melhor a sua vocação. Na jornada ampliada, ele está dentro do currículo normal, do tempo regular, e participa dessas oficinas após o almoço, ficando mais duas ou três horas na escola.

Um fator interessante é que a educação profissional ajudou a melhorar a matrícula de tempo integral. Quando nós levamos isso para dentro do integral, o aluno ficou mais animado, porque ele sai com o ensino médio regular tradicional, mas também tem um diploma, por exemplo, de marketing.

Agora, trago uma situação que muita gente não sabe: as famílias não concordam com o tempo integral. Eles preferem o meio período. É uma luta, junto com a minha equipe técnica, vender a proposta do integral para as famílias e os estudantes.

Os pais entram em contato dizendo que não querem que o filho vá para o integral, porque ele precisa trabalhar para ajudar dentro de casa. Contra essa frase, não há muito o que se fazer. A família retira o filho do integral, mesmo tendo os melhores resultados, para uma escola regular, e o adolescente vai trabalhar quando deveria estar no tempo de estudar. Esse adolescente, por exemplo, passa a ser frentista por quatro horas para ganhar R$ 400. Quando esse aluno terminar o ensino médio, vai ganhar um salário-mínimo, talvez viva no subemprego por muitos anos.

No integral, ele sai mais preparado, tem mais chances de passar no vestibular, de ter uma boa nota no Enem, de fazer uma carreira. É uma tristeza e, no estado de Goiás, tem sido uma luta constante manter a criança no ensino em tempo integral. Eu vejo que a forma como a educação integral foi implantada no início contribuiu para o descrédito de hoje, porque escolheram escolas com estruturas ruins, colocaram as crianças por nove horas lá dentro, sem quadra, sem refeitório, sem laboratório, sem robótica, sem nada, e ficavam esse tempo todo só assistindo aula, às vezes uma oficina. Os pais ouviam essas reclamações dos alunos, e isso ficou consolidado na cabeça das famílias, mesmo eu tentando provar que isso mudou.

“As famílias não concordam com o tempo integral. Eles preferem o meio período”, diz Fátima Gavioli | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

João Paulo Alexandre — Uma das referências do ensino público em Goiás é o Lyceu de Goiânia Após anos em reforma, foi entregue à população com a proposta de uma educação bilíngue. A disputa por uma vaga na unidade tem sido grande? E como foi pensada a proposta para trazer o francês como a segunda língua da unidade?

Quando conheci o Lyceu pessoalmente, ele estava com 180 alunos, mas com parte do prédio condenado. E a unidade conta com uma estrutura bonita. Mas eu ouvi falar do Lyceu quando fui ainda secretária de Educação em Rondônia. O governador Confúcio Moura estudou no Lyceu de Goiânia e, quando iria falar de uma escola, sempre exaltava o Lyceu, e eu fiquei com esse nome na cabeça. Quando cheguei à Seduc, fui conhecer a escola e fiquei muito triste, porque o local estava muito abandonado quando se fala em estrutura física. E fui buscar entender como seria possível fazer a revitalização dele, já que é um prédio tombado e tem toda uma burocracia.

Em 2022, eu propus revitalizar o Lyceu, mas havia pessoas que queriam que virasse um museu, sob a justificativa de que naquela região não haveria mais alunos. Mas isso não fazia sentido para mim, pois há escolas particulares na região. Então, há demanda. E sempre tem aquela família que está pagando uma escola particular com extremo sacrifício. Deixo claro que sou super a favor das escolas privadas — tem que ter escolas para todas as condições financeiras. 

Quando fui fazer uma imersão na França, me encontrei com o ministro francês e comentei que em Goiânia havia um Lyceu. Os olhos dele brilharam e ele me fez a proposta de criar uma escola francesa em Goiás, já que o Lyceu vem da França. A minha equipe fez todo o trâmite junto à embaixada, e fiz o orçamento para apresentar ao governador. Eu precisava de uns R$ 25 milhões para a revitalização e mobiliá-lo. Fiz alguns ajustes necessários no orçamento, que não impactariam outras áreas, e começamos as obras. Foram dois anos desde o primeiro contato com a embaixada francesa até a inauguração.

Houve uma divulgação pela mídia sobre a escola bilíngue e, quando abrimos o edital de matrículas, em três dias, eu tinha 800 alunos interessados. Precisamos fazer um filtro, porque várias pessoas queriam sair dos seus colégios para estudarem lá. Hoje, são 800 estudantes aprendendo com uma proposta bilíngue maravilhosa, e estamos com outras escolas bilíngues em projeto: uma italiana em Nova Veneza, uma de espanhol em Trindade, e é nosso desejo montar uma em mandarim em Aparecida de Goiânia. Está nos nossos planos também fazer a escola bilíngue português-inglês, mas o mais importante, e que ficou comprovado, é que, quando você tem um projeto pedagógico consistente e uma boa estrutura física, os alunos aparecem.

Lyceu de Goiânia virou um colégio bilíngue | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Giovanna Campos — Sobre as próximas escolas, como está o andamento dessas escolas para saírem do papel?

Por enquanto, está ainda em construção pedagógica, mas a reforma dos prédios em Trindade e Nova Veneza já está acontecendo, porque a escola bilíngue tem uma infraestrutura que foge do tradicional. Para você ter uma ideia, o Lyceu precisou ter um espaço para colocar as bandeiras do Brasil e da França; o auditório é todo adaptado; as placas de sinalização da escola têm que estar escritas nos dois idiomas; o cardápio também será bilíngue e traz culinária francesa. Eu acredito que a escola bilíngue italiana de Nova Veneza deve ser inaugurada no próximo ano.

João Paulo Alexandre — Em 2023, o Ideb da educação goiana foi de 4.8, o que configurou Goiás tendo a nota mais alta do Brasil. Já temos atualização referente ao ano passado?

Vai sair uma prévia no dia 14 de abril, mas, dentro daquilo que temos de experiência ao longo dos anos, a nossa meta é de 5.1. É um número audacioso. A nossa realidade está nos trazendo para um Ideb 5, que é uma marca histórica, já que ninguém nunca passou de 50% de aprendizagem no Brasil. Então, se Goiás atingir nota 5, eu posso não ter batido a meta, mas, sem dúvida alguma, é algo muito importante para nós.

Deputados ajudaram a melhorar a educação de Goiás

João Paulo Alexandre — Vamos falar de política: quais foram os deputados estaduais, federais e senadores que mais ajudaram a educação?

Toda a base aliada do governo, na Assembleia Legislativa, atuou fortemente na educação. Eles aprovaram todos os projetos que foram enviados à Alego. Não teve um que foi recusado. Isso é atuar na educação. Eu só tenho que agradecer à Assembleia por ter dado governabilidade ao governo estadual e à Secretaria da Educação.

A bancada federal goiana foi muito importante na doação de ônibus escolares para os prefeitos de diversos municípios goianos, o que ajuda no transporte escolar.

João Paulo Alexandre — As conquistas alcançadas na Educação até o momento acabam pesando para a senhora apoiar o projeto de Daniel Vilela?

Sim, acredito na gestão de Daniel Vilela, porque ele está dentro do governo acompanhando o que está acontecendo, e existe um compromisso por parte dele. Além disso, há o desejo de dar continuidade às políticas que estão dando certo. Eu confesso que sinto uma paz e tranquilidade porque, com Daniel assumindo, eu sei que vai cuidar da Educação com carinho, amor e respeito.

João Paulo Alexandre — A senhora já tinha visto um governador tão empenhado na defesa da educação como Ronaldo Caiado?

Nunca tinha visto alguém tão empenhado na defesa da educação. Ronaldo Caiado tem um diferencial: não é uma pessoa de discurso — é de fazer. E isso deixa um secretário de Educação feliz, porque imagina se um governo vem à imprensa, fala bem e, quando você vai despachar com ele, há muito mais entraves do que soluções? Em sete anos e três meses, nunca recebi um “não” do governador. Já tiveram situações em que éramos eu, ele e uma situação econômica desfavorável para o nosso pedido, mas Caiado ficou do nosso lado e apoiou a nossa decisão. Ele é diferente nisso, pois acredita na palavra da equipe técnica da secretaria.

Governador Ronaldo Caiado e Fátima Gavioli | Foto: divulgação

“Vou disputar mandato de deputada federal”

João Paulo Alexandre — Qual é o projeto da política Fátima Gavioli para este ano? A senhora realmente vai disputar as eleições para deputada federal?

O meu plano é encerrar a gestão agora no dia 31 de março e sair pela porta da frente, com uma baita sensação de dever cumprido. Não foi possível fazer tudo, e até acho que é quase impossível mesmo de ser feito, mas foi possível fazer, dentro do limite estrutural, quase tudo. A partir de abril, vou me dedicar à pré-candidatura de deputada federal e começar a fazer visitas, pois as pessoas falam que, em até 60 dias, o secretário é esquecido depois de deixar o cargo. Eu tenho esse prazo para saber como vai ser essa repercussão, de acordo com a minha andança, e, na medida em que as pesquisas vão acontecendo e tendo uma ascensão do meu nome, eu pretendo disputar as eleições.

João Paulo — No início, cogitou-se de a senhora ir para o União Brasil, mas optou por ir para o PSD?

Sim. Eu já estou filiada ao PSD, junto com o governador Ronaldo Caiado.

João Paulo Alexandre — Como a senhora enxerga a ida de Ronaldo Caiado para o PSD na tentativa de viabilizar a candidatura à Presidência da República?

A política é assim mesmo. É como uma nuvem no céu: olhou, está de um jeito; olhou de novo, e não está mais lá ou mudou a configuração. Ele era muito importante no União Brasil, mas o partido fazia questão de divulgar que não tem interesse em disputar a Presidência. O governador tem esse desejo, foi para o PSD e prova que é possível viabilizar uma candidatura desse calibre pelo partido. O governador está lá, levando o nome pelo Brasil com uma grande disposição. Então, eu vejo que ele está certo em buscar um lugar onde o discurso dele está se alinhando à questão ideológica do partido atualmente, que é ter uma terceira via.

Giovanna Campos — Quais serão as bandeiras defendidas pela senhora e, caso seja eleita, qual será o seu primeiro projeto a ser encaminhado à Câmara dos Deputados?

Minha bandeira principal é a educação. Nós não temos em Goiás um deputado federal que tenha vindo da nossa área. Temos alguns que deram aula, mas um que viveu a vida e se aposentou na educação, neste momento, seria eu. Mas o Brasil está precisando de uma legislação mais rigorosa em relação à questão da violência contra a mulher. Acho que não é para fazer isso só na hora de eu me lançar candidata, nem no momento em que estiver em uma campanha de reeleição. Isso tem que ser uma prática diária, uma rotina. A gente precisa trabalhar essa pauta no Congresso.

Inclusive, uma coisa que quase ninguém percebe é que existe, além da violência física, moral, financeira, social, a violência política. Não é um mundo fácil de entrar. Então, essa pauta me interessa muito, assim como a equidade social. A questão de o jovem ter acesso ao mercado de trabalho após terminar o ensino médio também é um assunto que me interessa. Nós precisamos dar aos empresários mais condições de abaterem seus impostos, para que possam se sentir motivados a empregar o jovem.

É preciso reduzir a carga de trabalho do professor

Agora, o meu primeiro projeto apresentado abordaria a questão da sobrecarga de dias letivos para o professor. Hoje, um professor trabalha 200 dias letivos. Até a década de 1990, trabalhávamos 180, e estava tudo bem. Esses 20 dias que aumentaram só, na prática, serviram para a gente ter uma grande quantidade de laudos médicos, porque isso sobrecarregou mais a nossa profissão. Na França são 175 dias letivos; na Inglaterra são 178 dias; na Espanha são 180; e, no Brasil, 200. E, se você pegar a prova do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, não há resultado nenhum de crescimento na aprendizagem. Eu entendo que, se quisermos preservar a saúde mental dos professores neste momento, o país precisa voltar para os 180 dias. Eu espero encontrar eco no Congresso, caso chegue até lá.

João Paulo Alexandre — Apesar de estar em cargos públicos, a senhora não teve uma carreira política. O que pesou para a senhora entrar nessa seara agora?

Não faz parte da minha vida o comodismo. Sou aposentada como professora, já fiz doutorado e sou avó. Algumas pessoas podem falar que eu deveria viajar, mas acredito que consigo fazer melhor do que fiz ontem e, amanhã, quero fazer melhor do que fiz hoje. Tenho uma vontade dentro de mim de fazer mais. Estou saindo da gestão Ronaldo Caiado, na qual ficou comprovado que é possível fazer mais pela Educação. E a gente fez muito por ela. Agora, vamos tentar uma vaga na Câmara dos Deputados, porque penso que é possível fazer mais pela categoria, para as mulheres, pela equidade; é possível ajudar este país. Sei que serei uma gotinha de água lá, mas eu estou querendo.

João Paulo Alexandre — Alguns interlocutores acreditam que a senhora vai ser uma grande puxadora de votos pelo seu trabalho à frente da Educação. A senhora acredita nisso? Como pretende trabalhar para que as pessoas conheçam o seu nome?

Não tenho essa ambição de achar que sou puxadora de votos. O que tenho é a esperança de que os pais, estudantes e os próprios servidores tenham visto em mim um esforço muito grande para melhorar a educação pública do Estado de Goiás. Política também é esperança, mas puxadora de votos, não. Até mesmo porque minha condição financeira não permite pensar em milhares de votos, mas já avançamos, e o fundo partidário para as mulheres hoje é quase o dobro. Isso também deixa a gente feliz. Tenho esperança de um voto mais consciente. Tem gente que fala para mim que já ganhei a eleição. Não existe eleição ganha. Eleição se ganha nas urnas. Eu vou ficar feliz se eu tiver uma votação muito boa, porque vou entender que o eleitor está mudando, pensando em menos oba-oba e mais em trabalho.

O que eu pretendo fazer a partir de 1º de abril: uma grande caminhada pelo Estado de Goiás, visitando e conversando com as lideranças. Eu não quero tirar voto de quem está fechado. Eu quero conversar com quem ainda não decidiu seu voto. Eu quero tomar um café da manhã na casa dele e pedir para me dar uma oportunidade. É essa conversa que tem de ter. Em segundo lugar, quero me oferecer para fazer trabalhos voluntários como palestrante na área da Educação.

Fátima Gavioli é entrevistada por João Paulo Alexandre e Giovanna Campos | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

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