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100 anos de tanta gente boa que até escondem as ruins

Alguns leitores já perceberam um truque de quem publica textos com regularidade –e até com algumas irregularidades, pois nem o Homem de Ferro é 100%. Refiro-me ao uso das efemérides. Quando quem dá o flagrante da muleta é um amigo, a advertência vem junto: “Em 2026 tem demais”. Ou: “Não vai faltar assunto, porque até centenário tá sobrando”. Bastaram 2 minutos de checagem para confirmar que realmente chegamos ao ano das datas redondas, prontinho para socorrer a imaginação que desce quadrada.

Como se dizia numa época aí, 1926 foi do balacobaco. Surgiram de Marilyn Monroe (1º de junho) a Fidel Castro (13 de agosto) e Elizabeth 2ª (21 de abril). Observe que morrer jovem faz diferença, não tanto quanto entre uma deusa, um ditador e uma monarca longeva: quem diria que a loura era mais velha que o barbudo e só 40 dias mais nova que a mãe do Rei Charles?

Marilyn será para sempre a da 1ª capa da Playboy –aliás, Hugh Hefner, o fundador da revista, também é de 1926 (9 de abril, 40 dias mais velho que a musa do vestido branco levantado pelo ventinho do metrô de Nova York).

Foi um ano pródigo em gente das letras, de Autran Dourado (18 de janeiro), o preferido de Juscelino Kubitschek, a Harper Lee (28 de abril), autora do clássico “O Sol é para Todos”, amiga de Truman Capote e parente do general Lee, aquele que adorava indígena. Também de Carlos Heitor Cony (14 de março) e José Paulo Paes (22 de julho) a Allen Ginsberg (3 de junho) e Neal Cassady (8 de fevereiro), ambos da Geração Beat.

Porém, foi na música que 1926 se eternizou com mais força. Nasceram os melhores do mundo, não apenas do mundo do jazz, no trompete (Miles Davis, 26 de maio) e no sax (John Coltrane, 23 de setembro) –vá às plataformas e ouça o quinteto de Miles com Coltrane, assim como os demais aqui mencionados, e não se esqueça de recomendá-los aos amigos. Geraram-se foras de série em cada estilo: Tony Bennet (3 de agosto), Julie London (26 de setembro) e Chuck Berry, que se o diabo for o pai do rock ele é no mínimo o genitor socioafetivo.

Voltando para o Brasil, o leque é amplo. O maestro Moacir Santos (8 de abril) foi um músico tão completo que atravessou os séculos influenciando artistas. Ficou famoso internamente por ser citado no “Samba da Bênção”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e internacionalmente por ter atuado nos Estados Unidos e composto “Nanã”, canção que viu num sonho e virou um sonho de canção.

O Poetinha diz que o arranjador não é um só, “és tantos/ como este meu Brasil de todos os santos”. Com Moacir também trabalhou Geraldo Correia, que inteiraria o centenário na 5ª feira (15.jan) e gravou discos com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos. No 8 baixos não tem igual, até por ser diferente de tudo e de todos.

Zezé Gonzaga (3 de setembro) tem uma biografia interessante. Chegou a ser a cantora mais tocada da Rádio Nacional, a mais importante emissora do Brasil no final dos anos 1940/1950, quando era no rádio que se curtia música e era na Nacional (depois na Tupi) que se ouvia o programa de Ary Barroso –dominava o aparelho e descobriu Zezé, além de tantos talentos nesse nível.

Tanto talento tinha Claudomiro Dosinho (24 de dezembro) que antes de existir internet fazia uma marchinha e, resumida a postagem boca a boca, dentro de poucas horas tinha milhares de visualizações, fora os milhões com suas duas músicas gravadas por Alceu Valença.

Como os amigos disseram, 2026 vai ser uma festa para os sem assunto e até para os com muito assunto de muito conteúdo. Por ser possível citar só uma fração, vou encerrar com Canhoto da Paraíba (19 de março), que, claro, ganhou o apelido por tocar violão com a esquerda. Deu vasta contribuição ao choro, rodando o país com Paulinho da Viola para divulgar o estilo. Tão exímio com o instrumento que virou lenda ainda vivo e continua pós-2008. Na internet, só podia ser, existem várias histórias de admiração por sua habilidade; esta consta da Wikipedia e envolve outros 2 gênios de amplitude planetária:

“Ao ver Canhoto tocar pela 1ª vez, Radamés Gnattali ficou tão impressionado que gritou um palavrão e jogou seu copo de cerveja para o teto. O dono da casa, Jacob do Bandolim, não apagou a mancha do teto para lembrar o momento”.

Essas canções, seus personagens e suas histórias ainda têm fôlego para ser ouvidas até 2126.

Demóstenes Torres, 64 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.

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