O mundo caótico das primeiras padarias de Campo Grande
Esqueça a imagem romântica das padarias atuais perfeitinhas com pão quentinho saindo do forno como se fosse magia. Os primeiros padeiros de Campo Grande, entre farinhas suspeitas, fornos temperamentais e clientes que achavam que sabiam tudo, viviam um caos digno de alguma passagem do inferno descrita por Dante. Turnos intermináveis. Quem narra é um paraguaio de quase noventa anos. Milton Chaparro viveu a dura realidade de uma padaria dos anos cinquenta do século passado. O turno era de 18 horas de trabalho. Diz que o trabalho era tão brutal que a maioria dos padeiros não passava dos quarenta anos de idade. Esta é a história de um homem que escapou da morte certa por milagre. Todos tinham os pulmões afetados pela fumaça do forno de carvão ou lenha. Apenas suor e farinha. Campo Grande tinha pouco mais de 100 mil habitantes nos anos 1950, segundo estimativa do IBGE. Segundo Chaparro, existiam apenas duas padarias no centro da cidade. Uma no bairro Amambai e a onde ele trabalhava, que mudava de endereço constantemente. Ele diz que ser padeiro nessa época era um “passo acima de ser enterrado vivo”. A vida era apenas suor e farinha. Trabalhava em uma sala fechada com um forno trepidando a noite toda. O calor era insuportável. A farinha criava uma nuvem dentro da sala, tornando o ambiente irrespirável. Não existia uma legislação que os protegesse. Abandonar esse trabalho era difícil. A opção era voltar aos trabalhos no campo. Seria uma volta ao passado paraguaio que lhe era intolerável.