Após ver a casa onde cresceu em cinzas, verdureira monta banca para trabalhar
Aos 67 anos, verdureira que vive há mais de seis décadas em um terreno na Avenida Dr. Nasri Siufi, na região do Jardim Batistão, encontrou a casa onde cresceu completamente destruída pelo fogo. Ainda assim, poucas horas depois do incêndio, ela montou a mesa de madeira na calçada e voltou a vender as verduras que cultiva sozinha no quintal. “O duro é que tem que ganhar tudo de novo, mas vou trabalhar”, disse, em voz baixa. A idosa tem medo de se identificar por medo de represálias. Ela acredita que o incêndio, ocorrido na madrugada deste sábado (17), tenha sido criminoso. Segundo contou à reportagem, no ano passado, também em janeiro, outro fogo atingiu parte interna da casa. Desde então, a parte danificada pelo fogo estava fechada, mas a idosa continuava no local. No último mês, por problemas de saúde, passou a dormir na casa de um irmão, e voltar todas a manhãs para o espaço que se refere como chácara para trabalhar com as plantas. O terreno onde ela mora fica entre dois loteamentos, o Ouro Verde e o Jardim Batistão. Grande, cercado de plantações e praticamente tomado por verduras, frutas e árvores antigas, o espaço pertence à família desde quando ela tinha apenas dois anos de idade. “Aqui só sobrou a casa do meu pai”, contou. O pai, segundo ela, era um grande verdureiro e chegou a trabalhar com caminhonete e até tratorzinho no local. Na manhã de hoje, por volta das 8h, ao chegar para trabalhar, a verdureira se deparou com a cena de destruição. “Não sobrou nada. Guarda-roupa, cama, pia, comida, ferramentas. Está quente ainda, o fogo está apagando”, relatou, apontando para os escombros da casa simples, tomada por fuligem. Mesmo assim, ela não foi embora. Organizou os produtos que ainda tinha e colocou tudo à venda em frente ao terreno. Abacates e mangas, que agora estão na época, dividem espaço com batata-doce, broto de bambu, cana-de-açúcar, banana e melão-de-são-caetano. “Recebo só em dinheiro. Tem que recuperar o valor”, disse. Humilde, andando com dificuldade, ela afirma que nunca deixou de trabalhar, mesmo diante das perdas. “Eu vivo até embaixo da lona, não tem importância. O difícil é a sacanagem que fizeram agora. A gente trabalha pra ir atrás”, desabafou. Além do incêndio, a idosa contou que, após o primeiro fogo registrado no ano passado, pessoas passaram a entrar no fundo da casa, justamente pela parte que havia sido queimada. Ela só percebeu quando a comida começou a desaparecer. “Eu achava que era gatinho que comia minha marmita, mas era gente”, disse. Segundo ela, enxadas e outros utensílios usados no trabalho também foram furtados e não estão mais no local. Sozinha desde jovem, a verdureira contou que teve apenas uma filha, que morreu antes mesmo de conquistar o diploma da faculdade, com que sonhava. Sem outros familiares morando com ela, diz que encontrou nas plantas e no trabalho diário uma forma de seguir. “A gente não abala mais, depois de tudo que acontece”, resumiu. Mesmo diante da destruição, ela faz planos. Um deles é simples, mas simbólico. “Eu vou comprar minha bicicleta de qualquer jeito. Vou comprar”, afirmou, enquanto atendia os clientes na calçada, poucas horas depois de perder tudo o que tinha.