De olho em frigorífico, paraguaios fizeram Vila Popular entrar no mapa
Localizada na saída para Aquidauana, em Campo Grande, a Vila Popular surgiu com a chegada de trabalhadores, muitos deles vindos do Paraguai para atuar no frigorífico, hoje pertencente à JBS. Com cerca de 19.401 moradores, o bairro preserva as histórias de quem construiu a vida ali, como dona Esperança, o marido Adolfo, dona Maria e o filho, Reginaldo, moradores antigos que ajudam a contar a trajetória da comunidade. Ao longo dos anos, a região recebeu investimentos em drenagem, saneamento, construção de equipamentos públicos e a retomada de obras paralisadas. Ainda assim, nem a obra milionária do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Imbirussu–Serradinho foi suficiente para retirar o bairro do Mapa de Prevenção de Desastres. Em diferentes períodos, a Vila Popular voltou a ser notícia por alagamentos e por famílias forçadas a deixar suas casas durante as cheias do Córrego Imbirussu. Moradora da Vila Popular há 47 anos, Esperança Ayala Gimenez, de 72 anos, criou os dois filhos no bairro e diz que não trocaria sua vida ali por nenhuma outra. Paraguaia, falante de guarani, ela relembra as dificuldades do início, quando chegou a Campo Grande após viver em Assunção e na Argentina. “Eu sofri muito quando cheguei”, conta. Esperança trabalhou no Frigorífico que na época se chamava Bordon até engravidar do primeiro filho. “Tive que sair para cuidar da criança”. Hoje, Esperança percebe melhorias no cotidiano. Ela participa de aulas de pilates e funcional no Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e elogia o posto de saúde do bairro, localizado a duas quadras de casa, onde é atendida há anos pelo mesmo médico. Ao comparar o passado com o presente, destaca a mudança no clima de segurança. “Antes era uma bagunça, tinha muita briga. Hoje é tranquilo”, resume. Essa sensação de tranquilidade também é apontada pelo marido de Esperança, Adolfo Gimenez, de 69 anos, morador desde a época em que o bairro ainda era mato. Natural de Porto Murtinho, ele lembra que havia cerca de 30 casas e uma área alagadiça próxima ao Córrego Imbirussu, conhecida como Vila Sapo, onde os problemas com alagamentos persistem até hoje em dias de chuva. Adolfo começou a trabalhar aos 14 anos no Frigorífico Bordon. “A gente ganhava metade de um salário mínimo e ia tocando a vida”, lembra. Uma das irmãs também trabalhou na empresa. Ao longo dos anos, passou por diferentes empregos, serviu o Exército, retornou ao frigorífico para atuar na área de manutenção e se aposentou em 2011. Mesmo tendo tido oportunidades de morar em outros bairros, Adolfo diz que nunca quis sair da Vila Popular. “Nossas amizades estão aqui. É um reduto de quem veio do Paraguai, da fronteira. Foi aqui que formei minha família”, afirma. Na avaliação dele, o bairro mudou para melhor. “Hoje, o melhor é a tranquilidade. A violência é mínima, tem posto de saúde bom, mercado perto. Só falta uma lotérica para pagar as contas, porque sou um pouco avesso a fazer pagamento por Pix, prefiro resolver tudo pessoalmente”, comenta. Vinda de São Paulo (SP), mãe de 7 filhos, Maria de Assis Silva, de 83 anos, também construiu a vida no bairro com muito trabalho. Por cerca de 40 anos, vendeu salgados e refrigerantes feitos por ela mesma em frente ao frigorífico, na portaria 4. Também encontrou no reaproveitamento do sebo descartado no córrego durante o abate dos animais uma forma de sustento. “Com o sebo, fiz minha primeira casa aqui no bairro”, lembra. Segundo ela, a gordura era recolhida, derretida e limpa antes de ser vendida para uma fábrica de sabonetes no Estado de São Paulo. O que sobrava virava sabão, que os filhos ajudavam a vender em carrinhos de pedreiro. “Foi assim que criei meus filhos e dei estudo para eles”, afirma. Além disso, dona Maria vendia pipoca, sempre acompanhada dos filhos, em dias de jogos no Morenão e também em frente à Escola Joaquim Murtinho. Muitas vezes, voltava para casa a pé, de madrugada, quando não conseguia vender o suficiente para pagar o transporte. Na época, morava de aluguel e enfrentou ainda a perda do marido, mas seguiu trabalhando para sustentar a família. “Quem trabalha de forma honesta, Deus ajuda”, resume. Ela relembra que, ao chegar à cidade, chegou a morar debaixo de uma árvore e, depois, em um barraco de lona. “Eu sei até o dia em que me mudei para a Vila Popular, em 23 de junho de 1973”, recorda, com precisão. O vídeo abaixo mostra a antiga Estação Engenheiro Mário Dutra, que ficava na região, onde Maria desembarcou com o marido e os filhos. A família mantém comércios no bairro, na Rua José Pereira, como material de construção, conveniência e hortifrúti. Orgulhosa, dona Maria lembra que ajudou a construir muitos dos imóveis que existem na região, vendendo mercadoria de construção fiado para os conhecidos. Mesmo em tratamento médico, ela não pensa em parar. “Eu gosto de trabalhar, gosto de vender, gosto de atender, amo meus clientes. Enquanto eu tiver força, estou trabalhando”, afirma. O filho mais velho, Reginaldo Teixeira da Silva, de 65 anos, recorda que a primeira casa da família foi construída com material reaproveitado da demolição da Escola Joaquim Murtinho. “Vendíamos picolé e refresco. Meu primeiro emprego foi arrumado por uma professora, numa empresa multinacional”, conta. A família hoje espalha sua atividade comercial por diferentes regiões da cidade. Moradores mais jovens, como Robson Ricartes Campaia, também enxergam a Vila Popular como um espaço de oportunidades. Nascido em Campo Grande, ele retornou ao bairro após um período em São Paulo e planeja abrir o próprio negócio. “O bairro é movimentado. Meu pai já morava aqui”, afirma. A Vila Popular faz divisa com bairros como Vila Bordon, Jardim Aeroporto, Jardim Itália e Jardim Búzios. Confira abaixo os depoimentos de Adolfo e dona Maria sobre a chegada à Vila Popular. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .