Se o dorama não vira real, mulheres desistem de marido, filhos e sexo
Se você é dorameira ou está por dentro desse universo, sabe que o sucesso deles é tão grande que mulheres brasileiras passaram a viajar para a Coreia do Sul em busca do “coreano perfeito”. A fantasia cresceu tanto que virou até reality de streaming. A grande questão é que, por lá, o homem retratado nos filmes não convence as próprias mulheres. Enquanto as estrangeiras desembarcam cheias de esperança, parte das mulheres sul-coreanas faz o movimento inverso. Elas não querem os homens, não querem filhos e não querem namorados. O pensamento é chamado “movimento 4B” e hoje o Lado B te explica o que é isso. A fama do universo coreano não está longe de Mato Grosso do Sul, por aqui lojas com produtos bombam, atores de lá consumindo músicas de artistas como Ana Castela já viraram notícia e os fãs apaixonados de BTS e os K-pop fazem até outdoor e tatuagem dos músicos. Os homens retratados nos doramas aparecem como pessoas sensíveis, românticas, educadas e muitos até os mostram como tiranos que se transformam após a submissão e empenho de mulheres para deixar eles mais humanos. Segundo Jacy Corrêa Curado, pós-doutora em psicologia social, essas pautas não são novas, mas o conteúdo e o formato sim. “A questão do identitarismo, do não concordo com isso e vou cancelar, excluir. Me parece um formato radical que aponta essa diferenciação. Antes a gente queria problematizar, agora você prefere cancelar as relações. Eu tenho uma visão bastante crítica sobre isso. É uma derrota para a humanidade. A gente precisa saber viver com as diferenças. Se não, cada um vive em uma bolha. Sou a favor do diálogo e transformação através dele”. Ela explica que a recusa ao casamento, à maternidade compulsória e à submissão feminina já é discutida há décadas pelos movimentos feministas. Simone de Beauvoir, por exemplo, já questionava a ideia de que a anatomia não define o destino das mulheres. A maternidade, para ela, deveria ser opção, não obrigação. Betty Friedan denunciava, nos anos 1960, o chamado “mal-estar sem nome”, a frustração feminina dentro do modelo doméstico tradicional. Mas, afinal, de onde esse movimento vem? Ele surgiu como resposta a problemas enfrentados por inúmeras mulheres por lá: altas taxas de feminicídio, assédio, crimes de espionagem sexual e desigualdades. O nome vem de quatro recusas explícitas, todas começando com a letra B em coreano: não a namoro, sexo, casamento e filhos com homens. O 4B não é um movimento organizado, nem majoritário. Ele atua principalmente em comunidades online e funciona mais como boicote social do que como militância institucional. Ganhou visibilidade internacional, mas tem alcance limitado dentro do próprio país. Para Jacy, que também é vice-coordenadora do Observatório de Violência contra a Mulher da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), outro ponto ignorado no debate viral é o contexto cultural. A globalização cria a sensação de que todos vivem a mesma realidade, mas isso é falso. A Coreia do Sul tem uma história social, moral e afetiva muito distinta da brasileira. “Assisti a uma série linda de dois jovens e demorou 16 capítulos para ter um beijo. Isso é impossível em uma série brasileira porque temos diferenças culturais. Vejo hoje que a maternidade está, sim, se tornando uma opção. O jovem quer uma profissão, depois ter filhos. Inverteu a ordem de 20/30 anos. A questão do estar só, muitas pessoas têm preferido morar sozinhas e temos que estudar mais sobre essa desistência de relacionamento e não esperança de um diferente”. A produção mais comentada da Netflix nos últimos meses, “Meu Namorado Coreano”, explora exatamente esse choque. Em uma das cenas que viralizaram, uma participante brasileira não foi buscada no aeroporto pelo “futuro” namorado. O pedido de desculpas veio depois, com flores, e isso bastou. Em outro momento, a jovem apresenta costumes brasileiros, como abraço e beijo no rosto. O suficiente para deixar o rapaz visivelmente constrangido. Nas redes, a cena rendeu o que falar porque parte do público achou a reação dele exagerada. Outra parte apontou que eles são assim mesmo. “Isso da Coreia do Sul parece que é aqui, mas não podemos esquecer as nossas raízes sociais. É triste ver isso de não sexo, não namoro. Acham que no Brasil vai ser igual lá, mas não, porque eles são assim, nós nunca fomos desse jeito”.