Sem filme: jovens adotam o “clique retrô” versão econômica
Que a febre da câmera analógica voltou com tudo não é novidade, mas que os jovem têm feito para driblar os preços altos dos equipamentos, sim. As soluções vão desde investimentos mais baixos em máquinas usadas a novos modelos simples que não exigem revelação, porém tem a mesma proposta: imitar a experiência de maneira mais econômica. O custo para manter o hobby a longo prazo fez com que Clara Silva, de 25 anos, optasse por uma câmera digital que simula um modelo analógico. O equipamento escolhido foi uma Alt, que não possui visor de pré-visualização da imagem. A foto só é vista após o cartão de memória ser inserido em outro dispositivo. Antes disso, a jovem teve uma câmera analógica em 2014. “Minha mãe comprou minha primeira câmera analógica em uma feira de antiguidades. Sempre gostei de fotografar e tive a sorte de encontrar um equipamento que funcionava. Comprávamos filmes no Centro e eu saía fotografando pela cidade,” conta. O hobby foi “aposentado” em 2016, quando a câmera passou a precisar de manutenção e limpeza. “Em 2026 resolvi comprar a Alt porque acaba saindo mais barato do que consertar a analógica e comprar os filmes”. A surpresa com o resultado final também é o principal motivo para Clara continuar usando o equipamento. “É só o visor e a sorte de ter alinhado tudo certinho, torcer para a iluminação ter ficado legal e depois ver o que foi feito ao passar as fotos para o computador.” A Alt usada por Clara está esgotada, mas quem quer economizar com a compra de filmes pode ter experiência semelhante com modelos como Camp Snap, Flashback One35 V2 e Lensy, que custam entre R$ 314 e R$ 900. Flora Venancio, de 38 anos sempre apostou nas fotografias analógicas, inclusive compartilha do mesmo modelo de câmera que a Clara. "Nasci em 1987 e tive muitas câmeras durante a infância, gostava de todo o processo, fotografar, a ansiedade de esperar a revelação e montar cada álbum contando a história daqueles momentos registrados. A Alt é a mistura perfeita da conveniência de ter uma fotografia digital com o visual de uma fotografia feita com filme". Segundo ela, por não ter tela de visualização da foto, tem o mistério da revelação da fotografia. "Acho que isso deixa o hábito de fotografar mais espontâneo, vou tirando fotos sem pensar se ficaram perfeitas, mas pensando que aquele momento foi registrado". A nutricionista e turismóloga conta que o preço do equipamento não pesou, pois ela segue com as duas rotinas de fotografar: analógica e digital simulando o analógico. Para ela, as pessoas estão buscando um ritmo de vida com mais calma, por isso as câmeras analógicas voltaram com tudo. "Existe uma tendência muito grande de volta ao passado, tanto de valor sentimental quanto de busca em qualidade de vida. A minha geração cresceu no analógico, experienciou o digital em todas as fases e percebe hoje que é necessário uma pausa, um momento de olhar em volta e viver a vida com menos pressa. As fotos digitais ficam guardadas nos dispositivos, já nas câmeras analógicas a fotografia tem processo, tem espera, expectativa por aquele registro único, tem um valor diferente". Outro fator que contribui com o sucesso é a sensação de nostalgia, de não ter controle de perfeição da imagem. O hobby é compartilhado também com o publicitário Gabriel Mello, de 25 anos. O fim de 2020 marcou a compra da primeira câmera analógica dele. O jovem conta que o motivo de ter gostado do nicho foi justamente a possibilidade da revelação instantânea da foto. No caso dele, foi com a Instax Mini 11 e a Instax SQ6 que ele encontrou uma saída para manter o hobby. O investimento médio em uma delas começa em R$ 473 e passa de R$ 2 mil, mas para ele o valor ainda é acessível porque outras câmeras ultrapassam esse preço. Com a aquisição da câmera analógica, a forma como as fotos são feitas mudou. Antes de apertar o botão, Gabriel relata que se preocupa mais em registrar o momento certo e o enquadramento, já que, depois do clique, a imagem não pode ser editada. A mudança de hábito também é percebida por quem é fotografado. “Muitas pessoas ficam nervosas, com medo de piscar com o flash ou de sair feias, já que depois de tirada a foto não tem muito o que fazer”, conta. Atualmente, a câmera é guardada para ocasiões especiais, como viagens, reencontros com amigos, aniversários e passeios no parque. “Sempre levo a câmera para momentos realmente únicos, quando sei que vou querer guardar aquele registro com carinho. Acho uma experiência especial. Gosto de ver, mesmo quando elas não saem perfeitas. É algo especial, singular. Para mim, isso faz tudo valer a pena, inclusive o investimento”, diz. Além de servir como decoração, a câmera também tem sido usada por Gabriel para presentear os amigos. Atualmente, seu momento favorito após capturar uma imagem é esperar pela revelação." “Quando eu tirava foto com o celular, sempre pensava em revelar depois, mas nunca fazia. Hoje, gosto de levar essas câmeras para momentos especiais e ir guardando os registros ou colocando em um mural no meu quarto. Eu gosto da sensação de ficar esperando ela aparecer. Quando você tira foto com várias pessoas, é legal ver a curiosidade de todos. Acho que isso torna o momento ainda mais especial”.