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Entre a arqueologia e a fábula: notas sobre uma falsa descoberta histórica

Yuri Baiocchi

A frase que me foi atribuída — “é mentira de cabo a rabo” — é verdadeira no essencial, mas insuficiente no argumento. Dita em contexto informal, acabou publicada sem que eu soubesse, o que me obriga agora a fazer o que meus leitores do Jornal Opção legitimamente esperam de mim: desenvolver, com método e responsabilidade, as razões pelas quais o texto que circulou nas redes sob o título de “Descoberta Histórica” não se sustenta nem como notícia, nem como hipótese historiográfica.

Assume, isto sim, tom de “descoberta sensacional”, com retórica inflacionada e linguagem próxima da ficção, sem atender a critérios mínimos de verificação, método ou historiografia. História não se reescreve por assombro.

O artigo criticado menciona supostas descobertas arqueológicas ocorridas em um imóvel rural do município de Goiás, mas falha em apresentar qualquer um dos elementos mínimos exigidos para que se possa falar seriamente em arqueologia. Não se informa quem realizou o achado, se havia arqueólogo responsável, qual foi o método empregado, de que forma os objetos teriam sido removidos e, sobretudo, se houve autorização do IPHAN, como exige a legislação federal para qualquer intervenção desse tipo. Não há imagens, não há laudos, não há cadeia de custódia, não há datação explicitada. Em pleno 2026, pede-se ao leitor que acredite em relíquias “inestimáveis” sem uma única fotografia.

Some-se a isso a completa ausência de documentação escrita que comprove a ligação genealógica entre a família mencionada no texto e Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Assinar “Bueno” jamais foi critério para descendência direta. Goiás está repleto de famílias com linhagens documentadas que efetivamente descendem do Anhanguera — como os Gáudie Ley, os Fleury, os Xavier de Barros, os Cunha Bastos, os Pereira de Abreu, os Couto Brandão, entre outros. Houve, por outro lado, diversos ramos de Bueno que não possuíam qualquer parentesco direto com ele, como os Bueno da Fonseca ou certos Bueno de Camargo. A genealogia, quando existe, se prova por documentos, não por suposições onomásticas.

Contudo, o ponto central não é sequer a filiação ao Anhanguera. O núcleo problemático está na própria lógica do argumento apresentado: as supostas relíquias serviriam para provar o parentesco; o parentesco, por sua vez, serviria para justificar as relíquias. Trata-se de um raciocínio circular que não se apoia em nada verificável. Nem o parentesco é demonstrado, nem os objetos são comprovados. Pergunta-se ainda: qual é a história dominial do imóvel? Qual sua primeira matrícula? Quem foi seu proprietário original? Ele pertenceu, de fato, ao Anhanguera ou mesmo a algum descendente próximo? O que dizem os registros escritos? Nada disso é mencionado.

A presença de um Sefer Torá no sertão goiano do século XVIII é materialmente improvável: trata-se de objeto litúrgico raro, caro e rigidamente controlado, inexistente em registros confiáveis do interior colonial sob vigilância inquisitorial. Cristãos-novos não mantinham objetos rituais explícitos, praticando, quando muito, um criptojudaísmo doméstico mínimo, feito de gestos simbólicos fragmentários. O mesmo vale para uma menorá de sete braços, símbolo público e não doméstico, cujo uso litúrgico formal havia cessado há séculos.

Chama atenção também a referência a uma suposta datação dos objetos, sem qualquer explicação sobre o método utilizado. Mais curioso ainda é o silêncio absoluto do meio acadêmico e cultural goiano, que, como se sabe, é pequeno, interligado e pouco dado a segredos dessa magnitude. Nenhum pesquisador sério consultado pelo Opção havia ouvido falar do caso. A menção genérica a um “pesquisador da UFG que preferiu não se identificar” apenas reforça a fragilidade do texto. Pesquisadores não se escondem quando possuem dados verificáveis; identificam-se, publicam e submetem seus achados ao crivo dos pares.

A obra de Anita Novinsky é usada de forma indevida. Ela jamais afirmou a existência de práticas judaicas formais organizadas em Vila Boa, sempre distinguindo indícios documentais de extrapolações simbólicas. Invocá-la para sustentar a ideia de um suposto “reduto sefardita” no sertão goiano constitui deturpação grave de um trabalho historiográfico rigoroso.

É plausível, sim, que o Anhanguera descendesse de cristãos-novos. Seu ancestral Bartolomeu Bueno da Ribeira, conhecido como “o Sevilhano”, imigrou de Sevilha no século XVI, e há referências que indicam possível origem judaica. Há inclusive brasileiros que buscam hoje o reconhecimento dessa ascendência para fins de cidadania ibérica. Isso, porém, não autoriza saltos fantasiosos. Vale lembrar que Manoel Pereira de Carvalho, trisavô de Cora Coralina, era Familiar do Santo Ofício em Goiás — um agente da Inquisição responsável, entre outras funções, por denunciar judeus. Casou-se com Mônica Joanna de Oliveira, bisneta do Anhanguera. Seria plausível que um agente inquisitorial se casasse com descendente direta de judeus praticantes clandestinos, guardiões de relíquias litúrgicas formais? A hipótese é, no mínimo, improvável.

Por fim, não passa despercebido o caráter genérico e padronizado do texto original, com formulações que lembram produção automatizada e referências vagas a arquivos históricos que, consultados, receberam a história com estranheza. Diante disso, não se trata apenas de contestar uma narrativa específica, mas de alertar para algo mais grave: a circulação irresponsável de pseudohistória, travestida de descoberta, que fragiliza o debate público, desrespeita a memória coletiva e banaliza o trabalho sério de pesquisadores, historiadores, arquivistas e arqueólogos.

Se houver verdade nesse caso, que o IPHAN e o Estado de Goiás investiguem, que os objetos sejam periciados, documentados e, se for o caso, incorporados ao patrimônio coletivo. Até lá, o que temos não é uma revelação histórica, mas um exemplo eloquente de como a mitomania digital pode se infiltrar no discurso cultural quando falta rigor — e quando a prudência editorial é abandonada.

Talvez por isso minha reação inicial tenha sido tão lacônica, como convém a todo goiano diante de uma grande mentira. No fim das contas, talvez nem devêssemos dar tanta publicidade ao caso — mas, já que demos, que seja ao menos para reafirmar a necessidade de rigor, método e seriedade na construção da nossa memória histórica.

Leia também: Professora da UFG se manifesta sobre as supostas descobertas de objetos de culto judaico na Fazenda Ruá

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