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As várias caras do Imperador Donald Trump

Quando se trata do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é difícil dizer exatamente quem está atuando, se o comerciante do Grande Bazar de Istambul, para quem é uma impossibilidade lógica vender sem barganhar até quase a exaustão, se o apostador acostumado às regras dos cassinos que faz do blefe e da trapaça seu método de ação, se o ególatra — ou se todos eles a um só tempo fingindo brigar um com o outro dentro da mesma couraça.

Trump pode nos remeter também à trama de “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Pirandello, no qual meia dúzia de seres ficcionais inacabados invadem um ensaio de teatro e o interrompem, exigindo que suas histórias sejam completadas e encenadas.

Nesse ano e cinco dias desde que tomou posse, em 20 de janeiro do ano passado, Donald Trump teima em ocupar o centro do palco — que julga ser seu por direito adquirido há séculos (o Império fará 250 anos em 4 de julho) —, impedindo que o grande drama do mundo siga seu caminho sem que ele meta o bedelho.

Milhões de seres humanos, nos Estados Unidos e no resto do planeta, tiveram suas vidas modificadas como consequência desse início da administração Trump. Os efeitos sobre a vida dos não privilegiados são materiais, mas também psíquicos. O novo Imperador estabeleceu como base da sua atuação a implantação de uma nova e talvez sem precedentes escala de medo e mandonismo, ameaças e chantagens.

Milhões de cidadãos estadunidenses perderam ou estão ameaçados de perder seus subsídios de saúde devido ao desmonte parcial e das mudanças administrativas no programa conhecido como Obamacare. Sob a alegação de que muitos são criminosos, os imigrantes, mesmo que legais, tratados como sendo “algumas das piores pessoas do mundo”, são caçados como bestas selvagens, e estão submetidos a um novo patamar de insegurança e angústia permanentes.

Segundo dados divulgados na imprensa dos Estados Unidos, a maioria dos migrantes detidos neste primeiro ano do novo governo, no entanto, “não tinha condenações criminais”. No final de novembro, “das 65 mil pessoas detidas, cerca de 26% eram alvo de processo criminal, 26% tinham acusações pendentes e 47% tinham violações de imigração”.

Segundo essas informações, dos detidos em todos o país entre janeiro e outubro do ano passado “apenas 7% tinham alguma condenação por violência, 37% alguma condenação anterior, sendo as infrações mais comuns dirigir sob o efeito de álcool e outras infrações de trânsito, e um terço não tinha nenhuma acusação criminal.” Mesmo assim, o bilionário presidente da mais rica nação do planeta ordenou “a deportação de cerca de 622 mil pessoas” (pobres ou muito pobres) desde a data da sua posse.

Os pais da Pátria e Donald Trump: o Império continua. Até quando? | Foto: Reprodução

Violência é marca registrada do 2º mandato de Donald

Trump até aqui — frente à sua nova estadia na Casa Branca, os primeiros quatro anos (2017 a 2021) parecem malvadezas de crianças do primeiro grau.

Trump investiu contra tudo e contra todos — em benefício dos seus pares de classe e de uma inédita exibição da musculatura imperial. Os ataques no front (sim, porque o Imperador está em guerra com o mundo) externo, embora tenham talvez mais espetacularidade, são relativamente acanhados se comparados à brutalidade da ofensiva contra os imigrantes e os norte-americanos desfavorecidos.

O estilo blitzkrieg (que a essa altura vence seus antecessores com alguns corpos de vantagem) atinge alvos dos mais variados portes, ao mesmo tempo em que se confunde, paradoxalmente, a uma representação burlesca. Para citar um exemplo, algumas semanas atrás o presidente do FED (a máxima autoridade monetária do país) garantiu em um vídeo tornado público pelo próprio Jerome Powell “que estava sendo investigado criminalmente como retaliação por não definir as taxas de juros que o presidente queria”.

No encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça (Europa), Trump (investido agora no papel de pai de todos) avisou aos europeus que “a Europa não está indo no caminho correto”, e para justificar suas pretensões ao “grande pedaço de gelo” que atualmente pertence aos dinamarqueses, disse que “na Segunda Guerra Mundial (sic), a Dinamarca cedeu a Groenlândia aos alemães após seis horas de luta” e que, portanto, se sentia “na obrigação de enviar soldados para garantir” aquele “big chunk of ice” — o tom de deboche e escárnio com seus súditos do Velho Continente era escancarado.

Noutro de seus rompantes verbais, ameaçou: “Ou vocês me entregam a Groenlândia ou pagam um preço por não entregar — começaremos com uma taxação extra de 25% sobre seus produtos exportados para os Estados Unidos”.

O método é tão antigo quanto a idade da pedra lascada, quando sequer existia a palavra escrita ou a linguagem tal como a conhecemos.

Desgaste da hegemonia e a chegada chinesa

Se é verdade que Trump implementou um vasto repertório de medidas administrativas e políticas mais ou menos inéditas desde sua posse, é verdade também que muitas dessas ações (ou o efeito delas) aconteceram apenas como discurso, um discurso invariavelmente superlativo, ultra exagerado, de conteúdo essencialmente publicitário e de reafirmação ideológica — ter vencido a “pior inflação”, deixada pelo governo do seu antecessor, conseguido os “melhores números” (sic) sob sua Presidência, obtido “a redução do preço dos medicamentos prescritos em 400, 500, 600%” (sic), convencido os Emirados Árabes e o Catar a investirem mais de 1 trilhão de dólares (segundo uma matéria do “NYT”, isso “é mais do que seus próprios produtos internos brutos”), dizimado o tráfico marítimo de drogas da América Latina para os Estados Unidos ao atacar barcos na costa venezuelana e sequestrar Nicolás Maduro, exagerado as taxas de criminalidade de cidades governadas pelos adversários democratas para justificar o envio de tropas da Guarda Nacional.

Não resta dúvida de que se trata de uma administração ansiosa por mostrar-se inaugural, na medida em que consideremos ao menos dois aspectos do seu desenvolvimento até aqui: a agressão efetiva, física e psicológica, contra os mais vulneráveis, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos, e a agressão propagandística que visa, por um lado, sobrevalorizar a dimensão da atuação do seu comandante, agigantando sua figura para muito além da real estatura para diferenciar-se dos que o antecederam e, por outro, reafirmar a hegemonia simbólica, seu direito ao controle real sobre, pelo menos, o mundo Ocidental, num momento em que essa hegemonia sofre desgastes aparentemente irreparáveis e a concorrência feroz dos chineses e seus aliados.

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