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O silêncio que destrói relações

Há silêncios que acolhem, e há silêncios que corroem. No início, o silêncio parece pacífico, um refúgio diante do desconforto de um conflito iminente. É o “deixa pra lá”, o “não quero discutir agora”, o “não vale a pena”. Mas o que começa como uma escolha de paz, quando se repete, torna-se um abismo. Relações não morrem por causa de uma conversa difícil, e sim pela ausência delas.  Em um relacionamento saudável, conversar é o que sustenta o amor. É o que ajusta o que está desalinhado, o que cura o que machucou sem querer, o que impede o outro de viver em suposições. Quando um casal deixa de falar sobre o que sente, o que pensa, o que incomoda — o silêncio se transforma em distância. E, sem perceber, o amor começa a perder o ritmo, o olhar perde o brilho, e o toque deixa de ter o mesmo sentido.  Muitas vezes, deixamos de conversar por medo. Medo de magoar, medo de ser mal interpretado, medo de provocar uma crise. Mas o verdadeiro perigo está justamente no não dito. O que não é dito se acumula. Cria barreiras invisíveis, distorce intenções, alimenta mágoas. Um simples incômodo, quando não compartilhado, se multiplica dentro da cabeça e vira uma tempestade. E o outro, sem saber o que acontece, tenta adivinhar. É assim que nascem os mal-entendidos, as desconfianças e o afastamento.  Conversar sobre tudo não é sinônimo de discutir o tempo todo. É sobre criar um espaço seguro onde a vulnerabilidade seja bem-vinda. Onde o “isso me feriu” não é recebido com defensiva, mas com empatia. Onde o “eu preciso de mais atenção” não é visto como cobrança, mas como pedido de amor. Onde o “não gostei disso” não vira briga, e sim ponto de partida para compreender melhor o outro.  Não há relacionamento que sobreviva apenas de gestos bonitos, jantares românticos ou declarações apaixonadas. O amor verdadeiro se sustenta em diálogo — inclusive nos dias em que o diálogo é pesado, confuso ou dolorido. Porque é nesse tipo de conversa que a relação amadurece. É quando ambos escolhem enfrentar o que está difícil, e não fingir que está tudo bem.  A maturidade afetiva não está em evitar conflitos, mas em aprender a atravessá-los juntos. Amar alguém é também estar disposto a ouvir verdades que incomodam e dizer verdades que libertam. É entender que o amor não é feito só de afinidade, mas também de coragem. Coragem para conversar, para se abrir, para pedir perdão, para reconhecer erros, para recomeçar.  O silêncio pode parecer o caminho mais fácil, mas é ele quem lentamente apaga a conexão entre duas pessoas. E quando o silêncio se instala, o amor se transforma em rotina, o cuidado vira obrigação e o olhar já não encontra mais abrigo no outro.  Por isso, fale. Mesmo que a voz trema, mesmo que o outro não entenda de imediato, mesmo que o assunto doa. Fale porque quem ama precisa se fazer entender — e precisa entender também.  O que destrói não é a conversa difícil. É o silêncio que cresce entre duas pessoas que um dia se prometeram tudo e hoje já não se escutam. O diálogo, mesmo que imperfeito, ainda é a ponte. E sem ponte, não há encontro.  (*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein.

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