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Quando o ajuste é sempre para cima, e nunca para quem paga a conta

No Brasil, austeridade costuma ser um discurso reservado ao cidadão comum, enquanto a elite política opera em regime permanente de autoproteção. Em meio a um país que ainda convive com filas no SUS, escolas sem estrutura básica e estados estrangulados financeiramente, o Congresso Nacional discute com desenvoltura como engordar salários, benefícios e verbas internas.

O fraquíssimo presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou esperar que o presidente Lula sancione o reajuste dos servidores da Casa. Logo em seguida, avisou que pretende elevar a verba de gabinete dos deputados em cerca de R$ 30 mil mensais, fazendo o valor saltar de aproximadamente R$ 133 mil para algo em torno de R$ 165 mil. Tudo isso, segundo ele, para “compensar” os aumentos concedidos aos funcionários.

A lógica é curiosa. Sempre que se fala em corrigir salários de professores, enfermeiros ou policiais, o debate gira em torno de impacto fiscal, responsabilidade orçamentária e limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. Quando o assunto é o próprio Congresso, os cálculos parecem se dissolver no ar. A conta fecha sozinha.

Verba de gabinete não é salário. Se trata de um valor robusto para contratação de assessores e custeio de atividades parlamentares. Em tese, deveria servir ao interesse público. Na prática, virou um colchão financeiro cada vez mais inflado, que garante conforto político e amplia a capacidade de acomodar aliados, cabos eleitorais e estruturas paralelas de poder.

O reajuste aprovado para servidores do Legislativo vai além do aumento escalonado entre 2026 e 2029. Inclui a criação de licenças por dias trabalhados, com possibilidade de conversão em dinheiro e sem incidência no teto constitucional. É a institucionalização de um privilégio que não existe para a esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros.

O discurso oficial tenta vender a narrativa de “recomposição inflacionária”. Mas a inflação, para o cidadão comum, raramente vem acompanhada de recomposição automática. Para milhões de brasileiros, o que existe é salário congelado, informalidade crescente e poder de compra corroído.

Cada decisão como essa aprofunda o abismo entre representantes e representados. O Parlamento que deveria ser a casa do povo se consolida, cada vez mais, como a casa dos próprios interesses.

O problema não é reajustar servidores. O problema é transformar qualquer movimento interno em gatilho para ampliar privilégios no topo da pirâmide. Em um país marcado por desigualdades históricas, esse tipo de escolha não é apenas insensível. É um recado claro sobre quem, de fato, importa quando o orçamento entra em disputa.

Enquanto isso, ao contribuinte resta a conta. Sempre.

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