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De onde vem a riqueza que banca o luxo em Goiânia?

Condomínios de alto padrão se multiplicam, vitrines de marcas internacionais surgem em shoppings antes inimagináveis, clínicas, restaurantes e concessionárias premium renovam o mapa do consumo em Goiânia.

Mas o brilho das fachadas só faz sentido quando se segue o fluxo do dinheiro, desde a fazenda, a mina ou a fábrica até o balcão da loja de luxo. Este especial reúne dados oficiais e entrevistas com os protagonistas da produção, da logística e do comércio para explicar, com números e vozes, de onde vem o dinheiro que alimenta o mercado sofisticado da capital goiana.

O contexto que emoldura o fenômeno é econômico, e as estatísticas federais servem de ponto de partida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás alcançou R$ 336,7 bilhões em 2023 [último ano no banco de dados], com crescimento real de 4,8%, acima da média nacional.

Mas o retrato fica mais nítido ao olhar a composição do Valor Adicionado Bruto: serviços representam 61,1%, indústria 22,1% e agropecuária 16,8%. Se os sinais do mercado de alto padrão em Goiânia chamam atenção, os números do IBGE podem ajudar a entender de onde vem esse dinheiro.

Embora o agronegócio seja o grande motor da riqueza goiana, ele respondeu por 16,8% do Valor Adicionado Bruto (VAB) estadual em 2023, mesmo após registrar crescimento expressivo de 15,1% no ano.

Isso significa que, ainda que a agropecuária gere picos relevantes de renda, especialmente em anos de forte desempenho das commodities, o setor de serviços é quem domina estruturalmente a economia: 61,1% do VAB goiano, o equivalente a R$ 184,7 bilhões.

A indústria aparece em segundo lugar, com 22,1% de participação (R$ 66,8 bilhões), sendo a de transformação responsável pela maior fatia interna do setor. Esse dado ajuda a explicar como parte da riqueza gerada no campo é agregada e convertida em valor ao longo das cadeias produtivas.

Outro indicador relevante para compreender o cenário é o avanço das atividades imobiliárias, que já representam 9,8% do valor adicionado estadual e não registram queda desde 2016. O crescimento contínuo do setor sugere que parte da renda gerada na agropecuária, na indústria e nos serviços tem sido direcionada para investimento patrimonial, um dos pilares do mercado de alto padrão.

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│ RAIO-X DO PIB GOIÁS ││ (2023) │
├───────────────────────────────────────────┤
│ PIB TOTAL: R$ 336,7 bilhões │
│ Crescimento: +4,8% │
│ PIB per capita: R$ 47.721 │
├───────────────────────────────────────────┤
│ Composição do VAB: │
│ Serviços: 61,1% │
│ Indústria: 22,1% │
│ Agropecuária: 16,8% │
└───────────────────────────────────────────┘

Soja movimenta a economia goiana | Foto: Mapa

Exportações

Os números de comércio exterior explicam quem está, objetivamente, formando o caixa que depois circula na economia local. Em 2026, o ranking dos produtos exportados por Goiás mostra liderança de itens ligados ao campo e ao subsolo:

Top 10 — Produtos exportados (2026), segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg):

  1. Ferro-ligas — R$ 2,01 bi
  2. Carnes bovinas congeladas — R$ 1,30 bi
  3. Carnes de aves — R$ 925 mi
  4. Ouro bruto — R$ 858 mi
  5. Couros curtidos — R$ 507 mi
  6. Açúcares — R$ 372 mi
  7. Medicamentos — R$ 351 mi
  8. Tortas e resíduos da soja — R$ 318 mi
  9. Máquinas/aparelhos industriais — R$ 283 mi
  10. Minério de cobre — R$ 268 mi

A maior parte do “dinheiro grande” vem da transformação em escala de produtos primários, proteína animal, metais, minerais, e de suas cadeias correlatas. Há industrialização (frigoríficos, siderurgia, curtumes, farmacêuticos), mas a base é primária e concentrada.

Os dados setoriais mostram duas camadas simultâneas. No topo, alguns segmentos concentram bilhões em exportações, como ferro-ligas e alimentos processados entre eles. Na base, há milhares de pequenos e médios estabelecimentos.

A confecção lidera em número de unidades (mais de 5 mil), seguida por fábricas de produtos alimentícios e pequenos metalúrgicos. O resultado: muita capilaridade produtiva e empregos locais, mas a formação de fortunas fica restrita a um núcleo reduzido de cadeias de escala.

Se os dados de exportação mostram onde está o dinheiro grande, o número de estabelecimentos industriais revela onde está a base produtiva. E os dois mapas não coincidem.

A divisão com maior número de empresas em Goiás é a confecção de artigos do vestuário e acessórios, com mais de 5 mil estabelecimentos. Em seguida vêm fabricação de produtos alimentícios (4.883), manutenção e instalação de máquinas e equipamentos (3.607) e fabricação de produtos de metal (3.432).

À primeira vista, isso sugere uma indústria diversificada e pulverizada. Mas o cruzamento com os valores exportados mostra outra realidade: os setores com maior número de empresas não são necessariamente os que geram maior volume de caixa externo.

Enquanto a confecção lidera em quantidade de estabelecimentos, ela não aparece entre os principais geradores de receita internacional. Já segmentos como metais básicos, agroindústria e mineração, que concentram bilhões em exportações, possuem número proporcionalmente menor de unidades produtivas.

Isso indica uma estrutura industrial com dois níveis distintos: na base, milhares de pequenas e médias empresas atuando em setores tradicionais; no topo, cadeias intensivas em capital, escala e exportação, responsáveis pela maior parte da formação de riqueza.

O contraste ajuda a explicar a dinâmica econômica do estado. A indústria goiana é ampla em termos de presença territorial e número de negócios, mas a geração de grandes margens está concentrada em segmentos estratégicos ligados ao agro, à metalurgia e à extração mineral.

Em outras palavras: há capilaridade produtiva, mas o fluxo bilionário que sustenta investimentos patrimoniais e consumo de alto padrão parte de um núcleo bem mais restrito da estrutura industrial.

┌────────────────────────────────────────────┐
│ TOP 10 EXPORTAÇÕES GOIÁS 2026 │
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│ 1⃣ Ferro-ligas R$ 2,0 bi │
│ 2⃣ Carne bovina congelada R$ 1,29 bi │
│ 3⃣ Carne de aves R$ 925 mi │
│ 4⃣ Ouro bruto R$ 858 mi │
│ 5⃣ Couro curtido R$ 507 mi │
│ 6⃣ Açúcar R$ 372 mi │
│ 7⃣ Medicamentos R$ 351 mi │
│ 8⃣ Derivados da soja R$ 318 mi │
│ 9⃣ Máquinas industriais R$ 283 mi │
│ Minério de cobre R$ 268 mi │
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Trabalhador em montadora de carro | Foto: Reprodução

Força do agro e base estrutural

Para o superintendente do IBGE em Goiás, Edson Vieira, o crescimento do PIB de Goiás em 2023 foi resultado de uma combinação entre fatores estruturais e conjunturais. Questionado se a expansão foi estrutural ou impulsionada por fatores pontuais, especialmente o desempenho do agronegócio, ele respondeu de forma direta.

“As duas coisas. O setor agropecuário cresceu bastante em 2023. Até aquele momento, foi o ano de maior produção agrícola da história de Goiás. Então, esse setor foi fundamental para explicar o crescimento da economia goiana naquele ano. Mas claro que não foi só ele.”

Segundo o superintendente, embora a agropecuária tenha sido o setor com maior variação positiva entre agro, indústria e serviços em 2023, o crescimento não pode ser atribuído exclusivamente ao campo. Apesar da alta expressiva, a agropecuária caiu em participação relativa no PIB estadual no mesmo ano, o que levantou a hipótese de diversificação produtiva. Edson pondera.

“É muito complicado apontar uma tendência apenas com base nesse resultado de 2023. Se olharmos os anos anteriores, o setor agropecuário vinha ganhando participação.” Ele lembra que, mesmo com a redução naquele ano específico, Goiás mantém um peso do agro muito acima da média nacional.

“Em 2023, a agropecuária representou cerca de 8% do PIB nacional. Em Goiás, mesmo com a queda, ficou em torno de 17%. Ou seja, é mais que o dobro da participação nacional.” Para o superintendente, o dado indica que há um movimento de maior equilíbrio entre os setores, mas não necessariamente uma mudança estrutural consolidada.

Outro ponto que chama atenção é o peso do setor de serviços, responsável por mais de 60% VAB em Goiás. Edson afirma que isso é característico de economias mais modernas. “Todas as economias modernas têm o setor de serviços como principal. Isso acontece tanto no Brasil quanto em Goiás.”

Ele explica que o setor é amplo e inclui desde atividades menos complexas até serviços intensivos em tecnologia. “O setor de serviços envolve desde um cabeleireiro, um serviço de entrega de comida, transporte por aplicativo, até serviços modernos ligados à tecnologia da informação. Não é só uma questão de urbanização, é uma característica de economias mais desenvolvidas.”

Segundo ele, o processo de urbanização continua, mas em ritmo mais lento do que nas décadas de 1950, 1960 e 1970. A indústria de transformação, por sua vez, tem forte conexão com o setor agropecuário no estado. Edson destaca o peso da indústria de alimentos e bebidas como elemento-chave.

“A nossa indústria tem um peso muito significativo da produção de alimentos e bebidas. Isso se dá justamente pela integração da agropecuária com a atividade industrial.” Ele explica que o recorde de produção agrícola em 2023 ampliou a oferta de matéria-prima, impulsionando a produção nas indústrias.

“Houve mais bens e serviços a serem processados. Isso ajuda a explicar o crescimento industrial de quase 4% naquele ano.” Nos últimos anos, o mercado imobiliário goiano, especialmente em Goiânia, tem registrado crescimento contínuo.

Questionado se os dados permitem afirmar que a riqueza gerada no interior converge para a capital por meio do setor imobiliário, Edson é cauteloso. “Os dados por si só não permitem estabelecer essa conclusão de forma direta.”

Ainda assim, ele reconhece indícios de conexão entre a dinâmica agropecuária e o setor imobiliário. “A gente tem indícios de que uma boa parte da renda gerada na agropecuária converge para o setor imobiliário, especialmente na construção de imóveis, inclusive de alto padrão.”

O desempenho diferenciado da economia goiana ao longo das últimas duas décadas reforça essa interpretação. “De 2002 a 2023, em termos nominais, a economia goiana cresceu 85,5%, enquanto o crescimento nacional foi de 58,2%. Uma boa parte dessa dinâmica diferenciada é explicada pelo comportamento do setor agropecuário.”

Como a participação do agro no estado é maior que no país como um todo, seus ciclos positivos impactam com mais intensidade a economia local. “Quando o setor agropecuário cresce, ele gera um impacto maior sobre a economia goiana do que sobre a economia nacional. E isso tem relação, sim, com o crescimento do setor imobiliário no estado.”

“Os dados por si só não permitem estabelecer essa conclusão de forma direta”, defende Vieira

O termômetro logístico

A infraestrutura que faz o encadeamento funcionar tem nome e endereço. No Porto Seco Centro-Oeste (PSCO), a operação concentra cargas de alto valor agregado que abastecem indústrias e mercados consumidores.

A avaliação é do diretor de operações do terminal alfandegado, Everaldo Fiatkoski, em entrevista ao Jornal Opção. Segundo ele, os dois segmentos que mais se destacam em valor financeiro são o farmacêutico e o automotivo.

“A carga que tem mais valor agregado aqui é a carga farmacêutica. É um mix de produto acabado, que vai direto para farmácia ou hospital, e de insumo farmacêutico, que serve de base para a produção de medicamentos aqui no estado. Nos dois casos, é um produto de alto valor agregado e com tecnologia embarcada”, afirma.

Além da importação de medicamentos prontos, o Porto Seco recebe sais e insumos que abastecem indústrias instaladas em Goiás. “Esses insumos servem de base para a produção e agregação de valor nas indústrias locais. Isso traz tecnologia e fortalece o parque industrial do estado”, destaca.

O segundo grande eixo é o setor automobilístico. Fiatkoski explica que duas montadoras concentram grande parte desse fluxo: CAOA Montadora e Mitsubishi Motors, ambas com operações em Goiás.

“São peças importadas e nacionais que são juntadas aqui para virar o carro. São cargas de grande volume e de alto valor agregado. E como são peças maiores, ocupam mais espaço e chamam atenção na movimentação física”, diz.

Ele observa que tanto medicamentos quanto veículos refletem um aumento do valor unitário dos produtos consumidos no país. “Antigamente você pagava R$ 3 em um remédio para pressão. Hoje paga R$ 50 em um medicamento mais tecnológico. Tem caneta de emagrecimento que custa R$ 1 mil, R$ 2,5 mil. O mesmo acontece com veículos. O carro mais simples já custa R$ 80 mil ou R$ 90 mil”, exemplifica.

Embora o terminal movimente diferentes tipos de carga, de produtos químicos a itens de limpeza e alimentos, o diretor afirma que o perfil predominante está ligado a insumos industriais e bens de consumo com maior valor agregado.

“Passa de tudo aqui. Mas o que tem maior significância, tanto pela escala quanto pela constância, são fármacos e produtos automotivos”, resume. Para Fiatkoski, o crescimento das importações também está relacionado à diversificação do consumo em Goiás. Ele cita o setor de materiais de construção como exemplo.

“Hoje o consumidor busca produto diferenciado e não se importa em pagar mais por qualidade. Piso vinílico, mármore, acabamento especial. Se lá fora estiver mais barato ou melhor, o empresário importa. Ele assume o risco para ter um produto diferenciado e com maior margem”, explica.

Porto Seco de Anápolis | Foto: Divulgação

Interior conectado

O perfil dos usuários do Porto Seco é distribuído por todo o estado. “Temos clientes em Porangatu, Rio Verde, Itumbiara. Claro que o maior volume está no eixo Anápolis-Goiânia-Aparecida, mas a atuação é estadual”, afirma.

Segundo o diretor, a estrutura logística é decisiva para viabilizar essa dinâmica. Goiás conta com ligação rodoviária duplicada até os portos do Sudeste e conexão ferroviária via Norte-Sul e malha da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).

“O fato de o empresário estar próximo da sua carga permite mais agilidade, controle e até postergação de tributos. Isso reduz custo e risco. A infraestrutura aproxima os mercados pela diminuição de despesas logísticas”, avalia.

Para o diretor, o fluxo logístico do Porto Seco ajuda a explicar a circulação de grandes volumes de capital na Região Metropolitana. “A logística permite que empresários tragam produtos de maior valor agregado, aumentem suas margens e atendam um consumidor mais exigente. Isso impacta diretamente na geração de renda e na movimentação financeira do estado”, afirma.

Ele destaca ainda que a existência de zona alfandegada em Goiás contribuiu para o crescimento das importações estaduais. “Os números mostram que o Porto Seco foi um dos responsáveis pelo crescimento significativo das importações em Goiás. Empresas preferem operar aqui porque evitam gargalos dos grandes portos e têm benefícios fiscais estaduais”, pontua.

Sem o terminal, segundo ele, a integração com o comércio internacional seria mais limitada. “O Porto Seco aproxima Goiás dos mercados nacional e internacional. Ele cria competitividade e ajuda a fixar empresas aqui”, diz.

Fiatkoski ressalta, porém, que o cenário futuro depende de estabilidade regulatória. “Existe preocupação com possíveis impactos da reforma tributária sobre a industrialização no estado. A previsibilidade é fundamental para manter essa dinâmica”, conclui.

Everaldo Fiatkoski: “Porto Seco recebe e despacha contêineres com os mais diversos produtos” l Foto: Guilherme Alves

Da rodovia para os galpões e os condomínios

A operação logística tem efeito territorial. Em Hidrolândia, a geografia e a malha viária transformaram a cidade num polo de distribuição. A apenas 26 quilômetros da capital, a cidade deixou de ser vista como cidade periférica da Região Metropolitana para se consolidar como um dos principais polos logísticos de Goiás.

Para o prefeito José Délio Júnior (UB), a explicação começa pela geografia, e termina na transformação econômica do município. “Hidrolândia tem a melhor posição geográfica do estado, logisticamente falando”, afirma o prefeito ao Jornal Opção.

Segundo ele, a cidade é a única localizada no sentido Sul da capital com acesso direto e privilegiado à BR-153, em pista dupla por 27 quilômetros. “Estamos no eixo de São Paulo, do Sudeste, que é onde está o desenvolvimento do país. Chegamos a Brasília pela BR sem cortar Goiânia, vamos para Belém também sem precisar passar pelo trânsito da capital. Não precisamos atravessar ruas estreitas para escoar produção”, destaca.

Além da BR-153, o prefeito cita o Anel Sul Metropolitano, projeto que interliga Hidrolândia, Bela Vista, Goiânia e Guapó, e a expectativa do futuro anel viário federal. “Vamos interligar cinco rodovias que saem de Goiânia no sentido Sul e Sudeste, tudo passando por Hidrolândia. As empresas viram essa localização privilegiada e começaram a instalar suas operações.”

A cidade abriga centros de distribuição de grandes empresas nacionais e internacionais. Segundo o prefeito, estão instaladas no município companhias como Shoppe, Amazon, Casas Bahia, Ponto Frio, Magazine Luiza, RD Drogasil, Martins, Pague Menos e Casa do Pica-Pau, entre outras.

“São as maiores players do país. Hoje geram quase 4 mil empregos diretos no município”, afirma. O fluxo de operações é intenso. “São centenas de caminhões por dia. Trabalhamos em dois turnos: descarrega no período diurno e carrega à noite. É um negócio extraordinário.”

O perfil predominante é de investidor especializado no setor logístico, com grandes galpões destinados a centros de distribuição. “Hoje os shoppings são virtuais. A compra é feita pela internet, então precisa ter um ponto estratégico para que a mercadoria chegue com mais rapidez na casa do consumidor final”, explica.

Centro de Distribuição em Hidrolândia | Foto: Reprodução

Crescimento populacional e novos condomínios

A consolidação logística impactou diretamente o crescimento demográfico. “Peguei um município com 19 mil habitantes. Hoje o próprio IBGE aponta mais de 30 mil. É um dos municípios que mais crescem no estado. Chega gente todo dia porque aqui tem emprego”, afirma.

Metade dos trabalhadores que atuam no polo vem de Goiânia e Aparecida, segundo o prefeito. “Hidrolândia sozinha não consegue ofertar toda essa mão de obra.”

Além dos centros de distribuição, o município vive expansão imobiliária de alto padrão. “Hoje temos 21 condomínios fechados. Muita gente da classe média alta para cima já reside aqui. A pessoa quer tranquilidade, quer sair do apartamento apertado e morar em um lote maior, numa casa com jardim.”

A proximidade com a capital é um diferencial. “Tem condomínio que eu saio da prefeitura de Hidrolândia e chego à Assembleia Legislativa sem pegar um semáforo. É trânsito rápido.” Questionado sobre o quanto a logística instalada na cidade ajuda a explicar a circulação de riqueza na capital, inclusive no setor imobiliário de alto padrão, o prefeito afirma que há contribuição direta.

“O município contribui muito com Goiânia. Primeiro porque os empregos são gerados lá e muitos trabalhadores vêm da capital. Segundo porque muita gente mora em Hidrolândia e trabalha em Goiânia. É qualidade de vida.” Ele resume o fenômeno em uma frase: “Você mora no interior, mas dentro de Goiânia.”

Presidente da AGM Zé Délio Jr | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

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│ COMO A RIQUEZA CIRCULA │
├────────────────────────────────────────────┤
│ Campo & Mineração │
│ ↓ │
│ Indústria (valor agregado) │
│ ↓ │
│ Logística (Porto Seco + Polos) │
│ ↓ │
│ Serviços & Comércio │
│ ↓ │
│ Mercado Imobiliário & Consumo Premium │
└────────────────────────────────────────────┘

Varejo e os serviços

Na ponta consumidora, o diagnóstico das entidades comerciais confirma o fenômeno. O comércio e o setor de serviços de Goiânia vêm registrando crescimento consistente nos últimos anos, com destaque para segmentos ligados ao consumo de alto padrão.

A avaliação é do presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), Rubens Fileti, em entrevista ao Jornal Opção. Segundo ele, embora o comércio em geral tenha avançado, alguns nichos se destacam pela expansão acelerada.

“O que mais chega para nós, inclusive com demanda por crédito e apoio institucional, é o mercado imobiliário, principalmente de alto padrão”, afirma. Além da construção e incorporação imobiliária, outros segmentos têm acompanhado esse movimento.

“Veículos premium, gastronomia mais autoral e focada no internacional, clínicas especializadas, planos de saúde de alto padrão e o setor de estética vêm crescendo muito. Goiânia tem se destacado como referência nacional na área estética”, destaca.

Fileti cita, inclusive, a expansão internacional de empresas goianas do setor. “Estive há duas semanas em Miami para o lançamento de uma clínica goiana que está sendo instalada lá. Ou seja, empresas daqui estão levando esse know-how para fora do país.”

A expansão do consumo sofisticado também alcança o setor educacional. “A educação privada está muito forte. Instituições como Alfa, IPOG, Fundação Dom Cabral, Fundação Getúlio Vargas e IBGC estão investindo cada vez mais em Goiás”, afirma.

No varejo de vestuário, a capital passou a receber marcas internacionais antes restritas a grandes centros. “A gente nunca imaginaria que Goiânia teria exclusividade de algumas marcas globais. Antes o consumidor precisava viajar para os Estados Unidos ou Europa para comprar determinados produtos. Agora, as marcas estudaram o nosso mercado e decidiram investir porque há consumo suficiente aqui.”

Segundo o presidente da Acieg, os setores imobiliário, automotivo premium, saúde privada, gastronomia e vestuário de alto padrão são hoje os principais beneficiados pela expansão desse mercado. Para além do agronegócio, tradicional protagonista da economia goiana, Fileti aponta outros segmentos que vêm sustentando o consumo sofisticado na capital.

“A indústria de transformação é muito forte, especialmente alimentos processados, frigoríficos, farmacêutica e química. A logística e distribuição também têm papel relevante. A construção civil, o atacado distribuidor, tecnologia e serviços empresariais ajudam a alimentar esse ciclo.”

Ele avalia que o empresariado goiano tradicional passou por uma transformação nos últimos anos. “É um grupo tradicional, mas que vem mudando o padrão de consumo e investimento, principalmente no pós-pandemia. A partir de 2021, houve uma guinada significativa.”

O mercado automotivo de alto padrão é outro termômetro dessa mudança. “Hoje você vê veículos acima de R$ 800 mil circulando com muito mais frequência. Modelos que antes eram raros passaram a ser comuns em regiões como o Marista”, diz.

“A gente nunca imaginaria que Goiânia teria exclusividade de algumas marcas globais”, diz Rubens Fileti

Ele observa que há maior concentração de faturamento nos segmentos voltados ao público de alta renda. “O ticket médio das compras de alto padrão está centralizado em empresários já consolidados, com histórico de investimento no estado.”

Fileti ressalta que fatores externos também contribuíram para esse movimento. “Mudanças nas rotas de exportação, tarifações internacionais e reconfigurações econômicas acabaram fortalecendo o consumo interno aqui na região.”

Na avaliação do presidente da Acieg, Goiânia se consolidou como o principal polo de consumo da riqueza produzida em Goiás. “Goiânia é o espelho mais visível da riqueza gerada no estado. Mesmo com cidades economicamente fortes como Anápolis, Rio Verde, Itumbiara e Catalão, a capital concentra empresários, centros de serviços e grandes condomínios. Virou a âncora do mercado de luxo em Goiás.”

Ele argumenta que a maturidade econômica do estado permitiu que a renda deixasse de se concentrar apenas na produção primária. “A renda gerada pelo agro, pela indústria e pela logística está sendo transformada em consumo, investimento e serviços na capital. Antes parte desse consumo saía do estado. Hoje ele fica aqui.”

Outro traço da nova dinâmica é o perfil do empresário goiano, cada vez mais diversificado. “Muitos empresários se tornaram multissetoriais. Um médico investe em startups, em agro, em imóveis. Um industrial também diversifica seus negócios. Eles não colocam os ovos em uma cesta só.”

Essa diversificação, segundo Fileti, alimenta outros setores, como educação e tecnologia. “Ele precisa buscar mais conhecimento, qualificação, gestão. A roda está girando. A economia está amadurecendo e isso fortalece o estado como um todo”, conclui.

┌────────────────────────────────────────────┐
│ QUEM MOVIMENTA O ALTO PADRÃO │
├────────────────────────────────────────────┤
│ Mercado imobiliário de luxo │
│ Veículos premium │
│ Saúde privada & estética │
│ Gastronomia internacional │
│ Educação executiva │
│ Investimento multissetorial │
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Distritos industriais

A base da riqueza industrial de Goiás continua ancorada no agronegócio, mas não apenas na exportação de commodities brutas. O presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás (Codego),
Francisco Júnior, afirma que os distritos industriais administrados pela companhia vivem um momento de transição.

O agro permanece dominante, mas cresce a busca por maior agregação de valor e diversificação tecnológica. “Primeiro, podemos colocar três setores bem interessantes. O principal é a cadeia do agro. Mas não só a commodity. É quando você agrega valor a isso”, afirmou ao Jornal Opção.

Segundo ele, a indústria de ração animal é um exemplo claro dessa verticalização. “Você tem todos os insumos, toda essa cadeia movimentando bastante os distritos. Temos muitas empresas nessa área.”

Outro setor destacado por Francisco Júnior é a indústria farmoquímica. “Nós temos uma indústria forte em Goiás de medicamentos, cosméticos. Essa área de cosméticos tem crescido muito. É uma indústria mais refinada, que envolve mais tecnologia e paga salários mais altos”, afirmou.

Ele destaca que o setor contribui não apenas para faturamento, mas para qualificação da mão de obra: “É uma indústria que desenvolve muito em vários aspectos.” A mineração também ocupa posição estratégica nos distritos industriais.

“Tem uma expectativa muito grande com as terras raras. Além disso, temos mineração tradicional, calcário, que é muito importante para a cadeia do agro.” Segundo o presidente da Codego, a exploração mineral tem impacto econômico imediato e relevante.

“São indústrias que têm, numa primeira vista, um movimento da economia muito significativo.” Francisco Júnior afirma que Goiás começa a ganhar relevância também na área tecnológica, tanto na produção industrial quanto no desenvolvimento de soluções digitais.

“Tanto a parte de produção quanto o desenvolvimento de tecnologia mesmo, de inteligência artificial. Estamos preparando um fórum de biotecnologia em Goiás.” Ele menciona o caso de uma empresa instalada em Caldas Novas que desenvolve tecnologia de automação para grandes máquinas agrícolas, com atuação internacional.

“Ela é líder nos Estados Unidos e já atua na Europa. Às vezes, nem sabemos que temos esse nível de tecnologia aqui.” Para o presidente da Codego, a agregação de tecnologia é o caminho para reduzir vulnerabilidades estruturais.

“Muito melhor do que exportar soja é exportar óleo de soja ou produtos feitos a partir dela. Precisamos aprimorar essa cadeia.” Questionado sobre o peso da logística como diferencial competitivo, Francisco Júnior relativiza.

“A logística é muito importante. Estamos a mil quilômetros de praticamente 80% do Brasil. Mas os programas de incentivo fiscal foram fundamentais.” Ele demonstra preocupação com a reforma tributária. “Ela é um desafio muito grande. Muda a forma de pensar.”

Segundo ele, para setores como o farmacêutico, que trabalham com alto valor agregado e baixo volume, a proximidade dos grandes centros consumidores é decisiva. “Se perdermos competitividade fiscal, essas empresas podem querer ficar mais próximas do grande mercado consumidor. Temos apenas 3% da população brasileira.”

DAIA, em Anápolis, é um dos distritos administrados pela Codego | Foto: Guilherme Alves/ Jornal Opção

O dinheiro do interior vai para Goiânia?

Ao ser questionado se a riqueza gerada nos distritos industriais do interior se converte em investimentos de alto padrão em Goiânia, Francisco Júnior respondeu com cautela, mas reconheceu a tendência.

“Não tenho dados concretos, mas o sentimento é que sim.” Ele aponta o mercado imobiliário da capital como exemplo. “O empresário não compra só para morar. Ele investe. Goiânia virou um mercado de investimento.”

Francisco Júnior também ressalta que Goiânia recebe capital não apenas do interior do estado, mas de estados vizinhos. “Captamos investimento do Pará, Tocantins, Mato Grosso do Sul. E tem a questão da segurança pública, que ajuda a criar esse ambiente.”

Segundo ele, empresários com negócios fora de Goiás têm escolhido a capital como base residencial. “Tem investidores que mantêm negócios em São Paulo, no Rio, até fora do Brasil, mas querem ter a família em Goiânia pela qualidade de vida.”

O presidente da Codego também cita o boom imobiliário como reflexo direto da geração de renda industrial e agroindustrial. “A construção civil virou um boom. Temos grandes empresas com capacitação financeira muito forte.”

Segundo ele, a valorização do metro quadrado em Goiânia e cidades como Rio Verde e Catalão mostra como o capital circula dentro do próprio estado. Francisco Júnior define o momento econômico goiano como uma fase de transição.

“O agro é muito importante, mas hoje já existe entendimento de que precisamos agregar valor. E isso passa pela tecnologia.” Para ele, a reforma tributária impõe desafios, mas a saída está na eficiência produtiva. “Precisamos produzir mais e melhor com menos investimento. Isso é fruto da tecnologia.”

Francisco Júnior, presidente da Codego: operando pela ampliação do Daia | Foto: Leandro Vieira

┌────────────────────────────────────────────┐
│ INFRAESTRUTURA QUE GERA CAIXA │
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│ Porto Seco de Anápolis │
│ • Farmacêutica │
│ • Peças automotivas │
│ │
│ Hidrolândia │
│ • 4 mil empregos diretos │
│ • 21 condomínios fechados │
│ • Eixo BR-153 │
│ │
│ Distritos da Codego │
│ • Agroindustrial │
│ • Farmoquímica │
│ • Mineração │

Uma parcela significativa do excedente gerado pelo agro, pela mineração e por cadeias industriais é capitalizada e direcionada para ativos urbanos na Região Metropolitana, com imóveis, serviços especializados, saúde privada e consumo premium.

Há evidências indiretas que sustentam essa leitura: crescimento constante do setor imobiliário, sem queda desde 2016, segundo o IBGE, subida do preço do metro quadrado em municípios que se articulam logisticamente com a capital e a observação empírica do aumento de consumo de itens de luxo na capital.

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