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Ninguém aguenta quem se faz de vítima

Existe algo profundamente sufocante em conviver com quem transforma a própria vida em um palco permanente de tragédia pessoal. Não é tristeza legítima, não é sofrimento real buscando cura — é a escolha contínua de existir como ferida aberta, exigindo que todos ao redor sangrem junto. A vitimização crônica não pede ajuda, ela exige submissão emocional. Ela não quer escuta, quer plateia. E quem tem boa vontade vira figurante involuntário de um drama que nunca acaba.  Porque a verdade mais incômoda é simples: pessoas que se colocam como vítimas o tempo todo não querem sair desse lugar. Ali existe um poder silencioso. O poder de nunca errar. O poder de nunca se responsabilizar. O poder de culpar o mundo inteiro enquanto continua repetindo os mesmos padrões, os mesmos erros, as mesmas escolhas ruins, esperando resultados diferentes e, quando não vêm, apontando o dedo para qualquer um que esteja por perto.  É exaustivo. É irritante. É emocionalmente corrosivo.  É insuportável conviver com quem transforma cada conversa em desabafo unilateral, cada frustração em prova de perseguição, cada limite imposto em rejeição cruel. Pessoas assim drenam energia como um buraco negro emocional. Nada preenche. Nada resolve. Nada muda. Porque mudar significaria abrir mão da identidade construída em torno da própria dor.  E existe algo quase agressivo na expectativa de acolhimento infinito. Como se o mundo tivesse a obrigação de ser colo eterno. Como se todos tivessem que entender, ceder, flexibilizar, suportar, enquanto a pessoa vitimizada nunca precisa crescer, nunca precisa amadurecer, nunca precisa olhar para si mesma com honestidade brutal.  A realidade é que ninguém aguenta. E não deveria mesmo.  Existe uma diferença gigantesca entre apoiar alguém que está passando por um momento difícil e ser sugado para dentro de um ciclo interminável de autocomiseração. Uma coisa é humanidade. A outra é manipulação emocional — às vezes consciente, às vezes não, mas ainda assim destrutiva.  Pessoas de boa vontade começam tentando ajudar. Depois começam a se cansar. Depois começam a evitar. E, por fim, vão embora. Não porque são frias. Não porque não têm empatia. Mas porque perceberam que estavam sendo usadas como muleta emocional permanente, como depósito de frustração, como fonte infinita de validação que nunca, nunca, nunca é suficiente.  E talvez a verdade mais dura de todas seja essa: quem vive na vitimização constante não perde as pessoas por azar. Perde porque ninguém quer passar a vida carregando alguém que se recusa a andar.  A vida adulta cobra postura. Cobra responsabilidade. Cobra a coragem de admitir que, sim, às vezes fomos injustiçados — mas outras vezes fomos nós que erramos, que escolhemos mal, que insistimos no que já estava quebrado, que ignoramos sinais claros. Crescer é olhar para isso sem maquiagem emocional.  Mas a vitimização eterna prefere a narrativa confortável: “o mundo é cruel comigo”. Porque enquanto o mundo é o vilão, não existe necessidade de mudança interna.  Só que existe um limite universal: a paciência das pessoas acaba.  E quando acaba, o que sobra é o silêncio. O afastamento. A falta de resposta. O convite não feito. A mensagem não respondida. Não como punição. Como autopreservação.  Porque ninguém é obrigado a viver ao lado de alguém que se alimenta da própria dor e espera que todos os outros façam o mesmo.  Existe uma crueldade silenciosa em exigir acolhimento infinito sem oferecer crescimento, reciprocidade, ou sequer o esforço de sair do próprio ciclo destrutivo. E chega um momento em que se afastar deixa de ser falta de empatia e passa a ser um ato de sanidade.  Nem toda pessoa que sofre está pronta para melhorar. E nem todo mundo tem obrigação de ficar assistindo alguém se afundar enquanto chama isso de sensibilidade.  A verdade, nua e sem poesia confortável, é que a vitimização constante afasta gente boa. Afasta gente disposta. Afasta gente que tentou, que escutou, que acolheu, que relevou. Porque chega uma hora em que ajudar alguém que não quer sair do lugar deixa de ser ajuda e vira cumplicidade com a própria estagnação dela.  E talvez o maior choque seja esse: o mundo não para para carregar ninguém para sempre. As pessoas não ficam para sempre. A paciência não é infinita. E, às vezes, o afastamento coletivo não é injustiça. É consequência. Dura. Real. Mas necessária.  (*) Cristiane Lang, psicológa especialista em oncologia. 

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