Cervo asiático é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores
Um registro feito em janeiro de 2026 deixou pesquisadores em alerta sobre uma nova ameaça ao equilíbrio ecológico do Pantanal, em Mato Grosso do Sul. O cervo Axis, também conhecido como chital, espécie exótica invasora na América do Sul, foi avistado em uma fazenda a cerca de 100 quilômetros ao sul de Corumbá, na região do Nabileque, entre a margem direita do Rio Paraguai e a fronteira com Bolívia e Paraguai. O relato, acompanhado de vídeo gravado por um funcionário da propriedade rural, mostra o animal atacando touros e sendo perseguido por cães. O aparecimento causou surpresa entre trabalhadores da fazenda, que nunca haviam visto o animal. A identificação ocorreu após consulta a técnicos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Pantanal. Por questões de privacidade, a localização exata não foi divulgada. A área é remota, pouco povoada e de difícil acesso, caracterizada como Chaco úmido, condição que torna improvável a hipótese de fuga recente de cativeiro. Para os especialistas, tudo indica que o animal chegou por dispersão natural. Expansão silenciosa - A ocorrência foi analisada em artigo publicado no site ((o))eco pelos pesquisadores Liliani Marilia Tiepolo, professora da Universidade Federal do Paraná, e Walfrido Moraes Tomas, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da própria Embrapa Pantanal. Segundo os autores, o registro confirma a capacidade de invasão da espécie, cuja presença no Brasil foi documentada pela primeira vez em 2009, no Rio Grande do Sul. Desde então, avançou gradualmente, chegando a Santa Catarina em 2019, ao Paraná em 2020 e registrada no interior de São Paulo em 2024. O cervo Axis foi introduzido originalmente em fazendas de caça no Uruguai, no início do século XX, e depois na Argentina, entre 1928 e 1930, com o mesmo objetivo. A partir desses focos, espalhou-se por vastas áreas e agora avança pelo território brasileiro. Conforme os pesquisadores, a velocidade de dispersão estimada varia entre 100 e 150 quilômetros por ano. Mantido esse ritmo, os pesquisadores avaliam que, em 15 a 20 anos, a espécie poderá alcançar diversos estados do país. Risco à fauna - A principal preocupação dos estudiosos é com o impacto do cervo Axis sobre os cervídeos do Pantanal, especialmente o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), já ameaçado de extinção, e o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus leucogaster). O bioma também abriga populações importantes de veado-catingueiro e veado-mateiro. O Axis é um mamífero de grande porte que pode ultrapassar os 100 kg de massa corporal. Os impactos potenciais incluem: competição por alimento e habitat; transmissão de doenças; interações agressivas entre espécies. Ainda não há estudos conclusivos sobre a magnitude desses efeitos, nem mesmo nas regiões onde o animal está estabelecido há mais tempo, embora já tenha sido observada sobreposição de dieta com espécies nativas. Fronteiras - No lado paraguaio da fronteira, a ocupação humana é mais intensa, enquanto áreas bolivianas apresentam baixa densidade populacional, favorecendo a movimentação natural da fauna. Não está claro o nível de ocorrência do chital no Chaco paraguaio, onde historicamente houve pouca regulamentação sobre posse e transporte de espécies exóticas. Há registros pontuais no país vizinho, inclusive resgates em Carmen del Paraná e nas proximidades de Assunção. No entanto, um episódio citado pelos pesquisadores reforça o risco, uma vez que em 2022, um chital mantido como animal ornamental atacou e matou um policial que fazia a segurança da residência oficial do presidente paraguaio. Comércio - Outro fator que preocupa os especialistas é a oferta do animal pela internet no Brasil. Anúncios tratam o chital como espécie “ornamental”, com preços que frequentemente ultrapassam R$ 10 mil. Além dele, aparecem à venda cervo rusa, cervo vermelho, antílopes e cervo dama. Esse comércio aumenta o risco de introduções intencionais ou acidentais, já que fugas de cativeiro não são raras. Um exemplo citado é o registro de cervo rusa vivendo livremente em Saquarema (RJ), incluindo casais e filhotes. Falta de política pública - Segundo o artigo, apesar do avanço da espécie, o Brasil ainda não implementou ações efetivas de controle. O histórico do javali é citado como exemplo de falha, pois a estratégia brasileira baseada apenas na atuação de CACs (Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores), conforme os pesquisadores, mostrou-se ineficaz, quando seriam necessárias remoções superiores a 60% dos indivíduos por ano para conter a expansão. A ausência de uma estrutura pública especializada também é apontada como obstáculo pelos estudiosos, pois o país não possui um serviço nacional ou estadual de vida selvagem voltado ao monitoramento técnico de populações invasoras, modelo adotado por países como Estados Unidos, Canadá e Austrália. O caso, concluem os pesquisadores, reforça a necessidade urgente de o Brasil estruturar uma governança pública capaz de enfrentar invasões biológicas, hoje consideradas um dos maiores desafios globais à conservação da biodiversidade. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .