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O bicho pegou no meu carnaval

Perdão, altaneiro leitor, se você é um integrante do manicômio que se esbalda na festa da ofegante epidemia que se chama carnaval. Não se avexe, pois também sou integrante de outro tipo de hospício, e nele as estrelas falam com os poetas. Afinal, já dizia a música: “Tá todo mundo louco”. Das vezes em que me esbaldei, não me recordo de algum pensamento inteligente guiando o meu ritual insano. Só me lembro de pular igual a um louco, numa felicidade forjada na bebedeira. O lance era pular, pular, beber, beber etc.

Era barulho, era suor, era uma alegria meio alugada, dessas que a gente devolve na quarta-feira, junto com o cansaço e o gosto amargo na boca. O que me obrigava a recorrer a umas goladas de chá de sete-dores. Essa era a minha volta à abóbora. Então a fantasia cai, e o herói de meia-pataca se desfalece diante da criptonita da realidade nua e crua. Eu, que me sentiu extraordinário por quatro dias, retornava à fila do pão com a mesma cara de sempre, mas um pouco mais inchada em decorrência dos inúmeros goles de variados birinaites.

Agora minha praia é outra. Meu barato é outro. Caretei de vez. Em vez de som barulhento e de uma multidão de pessoas suadas encostando umas nas outras, muitas vezes até trocando porradas, como todo ano é mostrado nos noticiários, pego minha máquina fotográfica e rumo para algum mato, onde há uma festa sem balbúrdia. Uma festa que conversa com a alma, que a faz bailar ao chilreio de um papa-capim, de um canário-da-terra. Foi isso que fiz neste carnaval.

Posso dizer que, literalmente, o bicho pegou para o meu lado. Foi som de gaturamos, fim-fins, galhas-cancãs, canários-da-terra, cambacicas, pássaros-pretos, entre outros. Foi um desfile sem purpurina, mas com penas e cantos. Cada galho era um camarote, e cada canto de ave parecia um solo de bateria afinado pela natureza. As gralhas-cancãs cantavam alto, mas não à altura das seriemas, que rasgam o ar como se anunciassem um bloco exclusivo do sertão.

Brigas, furtos e desordens são frequentes nas grandes aglomerações carnavalescas, na imagem briga no carnaval de Salvador | Foto: Reprodução

Ali não havia abadá, mas havia alvorada. Não havia trio elétrico, mas havia vento passando como um mestre-sala invisível. O sol fazia questão de iluminar cada detalhe, mostrando as variadas texturas de verde das folhas e os olhos amarelos das gralhas-cancãs. E eu, com minha câmera pendurada no peito, sentia-me menos fotógrafo e mais aprendiz de silêncio. Devo confessar que ainda estou na fase da soletração.

Numa caminhada dentro do condomínio onde eu estava, isso na boca da noite, algo roubou minha atenção. Entre a sombra e um resto de sol, pensei ter visto alguém fantasiado de tamanduá-bandeira. O corpo alongado, em movimento lento, quase teatral. Aproximei-me para elogiar a fantasia, porque carnaval tem dessas surpresas, e então constatei que não se tratava de uma pessoa, mas de um tamanduá-bandeira ao vivo e a cores. O bicho era grande. Atravessou a rua e foi fazer o que nasceu para fazer: se alimentar de formigas e cupins. E isso sem plateia, sem selfie, sem se preocupar em viralizar.

Ele e eu ficamos parados por alguns instantes, cada um olhando para o outro. Dois foliões, digamos assim, de carnavais diferentes. O meu de alma quieta, absorta. O dele, ancestral, sem samba, sem trio elétrico, sem precisar provar alegria a ninguém. Vi dignidade naquele focinho comprido, uma espécie de elegância primitiva.

Naquele instante, percebi que existe uma festa que não acaba na quarta-feira. Ela continua no vento, no farfalhar das folhas, no gorjeio das aves. E ali, confesso, o bicho pegou mesmo. Só que pegou foi na alma. E, diferente das ressacas antigas, essa não me pede nenhum antiácido ou outra beberagem qualquer. Pede retorno. Pede-me mais volta ao mato. Pede menos confete e mais raiz. Há carnavais que nos entopem de alegria postiça; há, portanto, outros que nos enchem de alegria singela, algo bem distante de qualquer conquista monumental ou fogos de artifício. Foi neste que me esbaldei.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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