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Divididos na base, isolados no centro: o dilema eleitoral do bolsonarismo

O bolsonarismo entra no ciclo eleitoral de 2026 diante de uma contradição estrutural: como convencer o eleitor indeciso de que representa estabilidade e direção clara se não consegue produzir consenso dentro da própria base? A força política que se consolidou sob o signo da liderança centralizada agora enfrenta o desafio de operar sem eixo organizador nítido, e sob um ambiente de disputas internas cada vez mais visíveis.

Com Jair Bolsonaro, o principal líder do campo conservador, preso e juridicamente fragilizado, o movimento perdeu seu elemento unificador. O bolsonarismo sempre funcionou mais como corrente personalista do que como partido estruturado. Sem a figura central exercendo comando direto, as ambições individuais emergem com intensidade.

O conflito entre Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Nikolas Ferreira simboliza essa disputa por protagonismo. Michelle tenta se apresentar como herdeira legítima do capital político conservador, apostando em uma imagem de moderação estratégica. Carlos preserva a linha mais ideológica e combativa, ancorada na militância digital e no apoio ao seu irmão, Flávio Bolsonaro, à presidência da República na disputa contra Lula. Nikolas, por sua vez, representa a geração que cresceu sob o guarda-chuva bolsonarista, mas já ensaia autonomia própria. Não é apenas uma divergência de nomes, é uma disputa por narrativa e por controle da marca.

Em Goiás, o racha entre Gustavo Gayer e Wilder Morais expõe o mesmo problema em escala regional. O PL, que deveria funcionar como instrumento de coesão, se tornou uma arena de embates. Em vez de ampliar alianças, a legenda se ocupa em administrar conflitos internos.

O eleitor fiel, nesse cenário, vive uma espécie de desalinhamento estratégico. Mesmo com a candidatura de Flávio à disputa majoritária, não parece existir pacto interno consolidado, então a base se fragmenta em microlealdades. E quando o eleitor convicto hesita, o indeciso se afasta.

Campanhas competitivas exigem três elementos centrais: unidade mínima, mensagem coerente e capacidade de expansão para além do núcleo duro. Hoje, o bolsonarismo demonstra dificuldade nos três pontos. A mensagem oscila entre radicalização e tentativa de moderação; a unidade depende de acordos ainda inexistentes; e a expansão esbarra na imagem de instabilidade.

Há ainda um componente simbólico relevante. Movimentos políticos que se apresentam como alternativa ao “sistema” precisam transmitir vigor e direção. Quando a principal vitrine passa a ser conflito interno, o discurso antiestablishment perde potência. A disputa deixa de ser contra adversários externos e passa a ocorrer dentro de casa.

Isso não significa subestimar a força eleitoral do bolsonarismo. O campo conserva base mobilizada, presença digital estruturada e capilaridade regional relevante. Mas vencer eleição majoritária exige mais do que militância fiel. Exige ampliar fronteiras.

O centro político, decisivo em disputas nacionais, observa o cenário com cautela. Eleitores moderados tendem a buscar previsibilidade e estabilidade institucional. Um campo marcado por disputas públicas, indefinições estratégicas e liderança enfraquecida encontra dificuldade para oferecer essa segurança.

A questão central não é apenas quem será o candidato. É se o bolsonarismo conseguirá produzir síntese interna capaz de reorganizar sua narrativa. Sem convergência mínima, o movimento corre o risco de transformar força ideológica em dispersão eleitoral.

A candidatura de Flávio, mesmo com apoio de Bolsonaro, ainda não desponta contra Lula que, por ora, ainda é o favorito para vencer as eleições. Enquanto o bolsonarismo definha, o progressismo avança no país.

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