O que uma revolucionária russa pode nos ensinar sobre o amor moderno
“O amor é um sentimento transversal à vida.” Dizer isso implica não apenas reconhecer que o amor é um sentimento inexorável à experiência humana, mas também compreendê-lo como uma emoção que caminha ao lado da vida, sem, contudo, aprisioná-la.
Esta é a principal lição que a pensadora russa Alexandra Kollontai buscou transmitir em seu texto Abram caminho para o eros alado!, de 1923. Escrito como um manifesto nos primórdios do Estado Soviético, o ensaio apresenta a autora como uma defensora de um novo tipo de amor para uma nova era da sociedade russa, que buscava redescobrir suas relações sociais após anos incessantes de guerra civil.
A pensadora defende um amor livre, que não deve ser confundido meramente com a poligamia, mas que tem como alicerce o fim das relações que alienam os casais de seus círculos sociais. Segundo Kollontai, o amor sempre existiu como uma ferramenta social moldada pelos valores e ideologias de cada época, condicionado por uma qualidade que ela denomina “saber amar”.
Para a autora, o “saber amar” da Antiguidade, por exemplo, encontrava-se em um amor análogo à amizade. “O mundo antigo apreciava apenas a amizade como sentimento capaz de consolidar os laços espirituais necessários para a manutenção do organismo social entre os indivíduos de uma tribo, inescapavelmente frágeis naquela época”, escreveu.
Contudo, a sociedade moderna — e burguesa — surrupiou o amor e o enjaulou no matrimônio, definindo-o em relações isoladas que não dialogam com o “todo”. Para que os bens não fossem desperdiçados, tornou-se necessário que a mulher fosse “amiga e assistente” do marido, gerindo a casa de forma econômica.
Baseado no instinto de propriedade, o amor moderno é marcado pelo “amor absorvente” e exclusivo. Essa ideologia incutiu a ideia de que amar concede ao indivíduo o direito de possuir plenamente — e sem compartilhar — o coração e a alma do ser amado.
É dessa semente que brotam os mais terríveis “crimes amorosos”, como o feminicídio, a violência no lar, a perseguição, o “se não é minha, não será de ninguém”, sustentados pela ilusão da posse, sobretudo em relação às mulheres. Para o “saber amar” moderno, a única forma “legítima” de amor encontra-se no casamento, espaço onde, segundo Kollontai, o amor vai para morrer.
Na perspectiva atual, Goiás tornou-se cenário de 13 mulheres assassinadas em decorrência do feminicídio, além de um dos episódios mais cruéis de violência vicária que ecoou no discurso nacional. O Estado convive com a repetição desses casos como rotina de boletim: mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica, agressões justificadas por ciúme, separações tratadas como afronta, famílias inteiras consumidas por disputas de controle.
Dessa forma, a autora afirma que o amor renovado precisa nascer de uma união conjunta e de uma igualdade absoluta, caracterizado por um amor-camaradagem que envolva todos os membros da sociedade, independentemente dos gêneros.
O amor deve deixar de ser uma paixão cega e absorvente para se tornar uma força baseada na solidariedade, na unidade de ação e na criação comum de uma nova sociedade.
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