World News in Portuguese

Calmo até demais, bairro tem fruta no pé e é o queridinho para provas do Detran

Vizinho a uma antiga lavoura de café, em Campo Grande, o Bairro Santa Carmélia recebe moradores desde o início da década de 1970. A primeira casa de madeira foi erguida pela costureira aposentada Neuci Barbosa Silvia e seu marido comerciante, que morreu recentemente. Ela segue morando no mesmo lugar e não pretende sair. Sorridente e tranquila, apesar dos problemas nos joelhos e coluna que tem enfrentado aos 75 anos, a pioneira ostenta um quintal frutífero cultivado por décadas. Tem jurubeba, jabuticaba, manga, fruta-do-conde, romã, pitaia, goiaba, laranja e até abiu, uma fruta exótica. A casinha simples de duas peças deu lugar a outra de alvenaria que acompanhou o progresso do bairro. Ela fica na Avenida Euler de Azevedo, hoje a mais movimentada da região. Antes disso, o casal vivia cercado por matagais. Usava lamparina quando o sol ia embora e acordava com o canto do galo. O marido vendia de tudo e assim sustentava a família. Tiveram dois filhos. O mais velho tinha dois anos quando chegaram ao Santa Carmélia.  Com o aumento da ocupação e a delimitação de áreas do Exército, militares começaram a viver nas redondezas. A família construiu um salão ao lado de casa para Neuci aproveitar a oportunidade e trabalhar consertando roupas dos primeiros vizinhos. “Já costurei muita farda de militar e de uniforme de aluno do Colégio Militar”, lembra. Mais tarde, a costuraria dividiu espaço com uma mercearia onde o esposo vendia alimentos e bebidas refrigeradas numa geladeira a gás. O pensamento vai longe quando a moradora constata o quanto o Santa Carmélia cresceu. “Antes era tudo difícil, agora tem de tudo. Não tenho o que reclamar e não me vejo morando em outro lugar”, diz. Calmaria - O Santa Carmélia é um bairro residencial que ainda não tem prédios. A maioria dos proprietários das casas é de pessoas mais velhas, sendo grande parte ainda militar de profissão, como anda observando a agente comunitária de saúde, Sebastiana de Moura, 51 anos. Ela também nota que a proximidade com a UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) e a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) tem valorizado os imóveis e atraído novos moradores. A paz reina ali. “Temos alguns casos de furtos, mas poucos. É um bairro muito calmo”, atesta Sebastiana, que também é moradora. Essa mesma paz fez o Santa Carmélia se tornar o queridinho para candidatos à primeira CNH (Carteira Nacional de Habilitação) fazerem aulas de direção e provas práticas do Detran (Departamento Estadual de Trânsito). O instrutor de autoescola, João Pires, 55 anos, confirma.  “Atualmente, os bairros mais sorteados têm sido o Santa Carmélia ou o Jardim Panamá. Principalmente o primeiro, acho que por ter uma infraestrutura melhor. Pelo que tenho visto, 90% dos exames estão sendo aqui”, ele conta. O construtor, Luiz Ferreira, 39 anos, aprovou as aulas de direção no bairro. Elogiou a sinalização, as condições do asfalto e está seguro que vai passar na prova. “Não o conhecia e achei muito calmo. É confortável fazer aulas aqui”, comenta. Outro atrativo para os alunos e instrutores é a tranquilidade da lanchonete da dona Maria Anunciadora de Oliveira, 73 anos. Para localizá-la, é só procurar o lugar onde carros de autoescola estacionam.  O comércio abre às 6h30 com cafezinho, salgados, suco, refrigerante e uma boa conversa. Atrás do balcão, Marília virou uma “psicóloga” que escuta e consola quem fica nervoso antes da prova ou triste por não ter sido aprovado.  A idosa trabalha no mesmo ponto há mais de 20 anos. Antes, o estabelecimento era um bar que ela tocava com o marido. Mas eles se cansaram de separar brigas e de outras confusões, decidindo transformar o espaço na atual lanchonete. Maria também perdeu o companheiro há pouco tempo. A segurança do Santa Carmélia sustentou a decisão da viúva de continuar trabalhando. “Tem tantos anos que moro aqui e trabalho, não tenho medo. No Santa Carmélia, a gente tem qualidade de vida e tranquilidade”, fala. Carência - Sobra calmaria e pés de goiaba nos quintais e calçadas, mas faltam espaços coletivos para lazer, cultura e atividades físicas no bairro, na opinião dos moradores. O serralheiro e artesão, Vander Acunha Jarcem, 41 anos, não vê como defeito o Santa Carmélia ser um bairro pacato, mas acha que um pouco de movimento não faria mal. Morador há oito anos, ele sente saudades de quando viveu em Embu das Artes (SP) e teve uma experiência mais forte do que é viver em comunidade. "Não tem um campo de futebol para a criançada. As reuniões são mais entre as próprias famílias. O centro comunitário que a gente tinha, estava virando uma 'cracolândia' e demoliram o patrimônio. Ficou só uma masmorra, virou um lixão nos entulhos. Está tudo ao léu: não tem atividade nenhuma lá", afirma o autônomo.  O centro comunitário ficava atrás do posto de saúde do bairro. Os entulhos haviam sido removidos na última quarta-feira (18), quando o Campo Grande News esteve no local. Além disso, uma quadra de areia nova foi construída ao lado de onde o prédio estava instalado. Comerciante que tem uma banca em frente ao terreno, José Leite da Silva, 64 anos, lembra que o prédio demolido serviu até como vestiário para profissionais de saúde. Depois, foi de sede de clube de mães a associação. O prédio foi abandonado num período de esvaziamento de atividades.  "O lenga-lenga de que iam reativar o centro comunitário tem uns oito anos. Daí, os 'nóias' começaram a levar tudo: porta, torneira... Agora, a gente espera a construção de uma nova praça, com pista de caminhada e um novo prédio. Tem que dar um rumo para isso", pede. A reportagem questionou a assessoria de imprensa da prefeitura sobre o projeto para a área. Segundo resposta da Sispep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), além da pista de caminhada, uma academia ao ar livre será montada. A pasta não comentou sobre outros projetos voltados ao esporte, lazer e cultura que poderão ser levados a outras localidades do bairro.

Читайте на сайте