World News in Portuguese

Apesar do crescimento de casos em Goiás, mais de 90% dos desaparecidos em Goiânia são localizados

O desaparecimento de uma pessoa não é apenas uma ocorrência policial. É uma ausência que se instala sem explicação, uma rotina que se quebra, um telefone que não toca. Para quem fica, o tempo não passa — ele pesa. “Desaparecimento é um luto eterno”, resume o delegado Pedromar Augusto de Souza, do Grupo de Investigação de Desaparecidos (GID) da Polícia Civil, responsável exclusivamente pelos casos registrados em Goiânia.

Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) obtidos com exclusividade pelo Jornal Opção mostram que o número total de registros de pessoas desaparecidas em Goiás tem crescido ano após ano. Em 2020, foram contabilizados 2.698 casos no Estado. Em 2025, o número chegou a 3.872 — um aumento de cerca de 43% em cinco anos.

Desaparecimentos registrados em Goiás

  • 2020 — 2.698
  • 2021 — 3.101
  • 2022 — 3.464
  • 2023 — 3.619
  • 2024 — 3.792
  • 2025 — 3.872

A curva é ascendente e contínua. Mas, quando se observa a capital, o cenário apresenta uma particularidade: embora o número de registros também tenha aumentado, os índices de localização permanecem elevados.

É importante distinguir: os dados acima referem-se a todo o estado de Goiás, enquanto as informações detalhadas pelo delegado Pedromar dizem respeito exclusivamente a Goiânia, onde atua o GID.

Goiânia: crescimento nos registros, mas alta taxa de localização

Em 2024, Goiânia registrou 688 pessoas desaparecidas. Destas, 646 foram localizadas — índice de 93,89% entre maiores de idade. Entre menores, a taxa se aproximou de 100%.

Em 2025, os números melhoraram ainda mais:

  • 96,47% de localização entre maiores
  • Entre 98% e 100% entre menores

“O índice mais baixo que tivemos foi 93%. Em 2025, já subiu para 96,47% entre maiores e praticamente 100% entre menores”, afirma o delegado. Mesmo assim, houve aumento nos registros na capital.

“De 2024 para 2025, tivemos um crescimento de 3% nos casos de maiores e 4% entre menores”, explica.

Ou seja: mais pessoas estão sendo registradas como desaparecidas, mas a polícia também tem conseguido localizar a maioria delas.

Situação de rua: um desafio social

Um dos pontos mais delicados envolve pessoas em situação de rua. Muitas vezes, são registradas como desaparecidas por familiares, mas são posteriormente localizadas vivendo nas ruas e optam por não retornar.

“Se localizamos e a pessoa não quer voltar para casa, comunicamos a família e damos baixa. Não é uma questão criminal, é social”, explica o delegado.

Nesses casos, a atuação policial se encerra na localização, enquanto a assistência social passa a ter papel central.

O mito das 24 horas

Pedromar faz questão de desconstruir uma crença comum:

Não existe esperar 24 horas. Quando fugiu da normalidade, o registro tem que ser imediato.

O boletim de ocorrência pode ser feito em qualquer delegacia do Estado ou pela Delegacia Virtual. O sistema automaticamente direciona o caso à unidade responsável pela investigação.

Para o delegado, a rapidez no registro é determinante.

“O desaparecimento começa com o boletim. Sem ocorrência, não existe investigação.”

Quem mais desaparece?

Em 2025, Goiânia registrou 709 desaparecimentos de maiores e 179 de menores — cerca de 25% dos casos envolvem crianças e adolescentes.

Segundo Pedromar, as motivações variam:

Entre menores:

  • Conflitos familiares;
  • Busca por autonomia;
  • Namoros;
  • Envolvimento com drogas.

Entre maiores:

  • Endividamento;
  • Transtornos psicológicos;
  • Desavenças familiares;
  • Situação de rua.

“Os casos criminosos existem, mas são minoria”, afirma o delegado.

Ele cita que muitos desaparecimentos envolvem fatores emocionais e sociais. Há ainda casos de brasileiros que somem em conflitos internacionais e têm registro feito em Goiás para acionar vias diplomáticas.

A importância da comunicação da família

Um fator que impacta diretamente os índices é a falta de atualização após o retorno do desaparecido.

“Muitas vezes a pessoa volta e a família não comunica. A foto continua no sistema como desaparecida”, alerta o delegado.

Detalhes também fazem diferença: foto atual, características físicas, tatuagens, cicatrizes, histórico psicológico, rotina e vínculos ajudam a acelerar a localização.

Crescimento estadual exige atenção estrutural

O aumento constante nos registros em Goiás entre 2020 e 2025 revela um fenômeno que ultrapassa a esfera policial. Conflitos familiares, vulnerabilidade social, transtornos mentais e fragilidade de vínculos aparecem como fatores recorrentes.

Enquanto Goiânia apresenta índices elevados de localização sob responsabilidade do GID, o cenário estadual reforça a necessidade de políticas públicas integradas de prevenção, assistência social e saúde mental.

Para quem espera notícias, porém, estatísticas não consolam.

“Para a família, é um luto sem corpo, sem resposta. É um luto eterno”, resume o delegado.

E é justamente contra esse vazio que cada boletim registrado tenta lutar.

Desespero

No dia 9 de março, pouco depois do meio-dia, um carro preto estacionou próximo a uma feira de bairro em Goiânia. Dentro dele estavam pai e filha. Ele desceu para comprar laranjas. Ela ficou esperando.

Vinte e cinco minutos depois, começou o desespero.

“Eu fiquei esperando e pensando: meu pai está demorando. Já era final de feira. Eu desci do carro, fui atrás dele. Andei a feira todinha. Não encontrei”, conta Patrícia Pimenta, filha de Wilson da Hora de Oliveira, de 81 anos.

Uma câmera de segurança registra o momento exato em que Wilson desce do carro, atravessa a rua e caminha em direção à feira. A imagem corta. Ele nunca mais foi visto.

Veja as imagens abaixo.

É como se ele tivesse evaporado. Nenhuma câmera pega meu pai. Nenhuma. A gente não tem nada, nada, nada, diz a filha.

A história de Wilson é uma entre milhares registradas nos últimos anos em Goiás. Dados obtidos com exclusividade mostram que o número total de pessoas desaparecidas no Estado cresceu de 2.698 em 2020 para 3.872 em 2025 — aumento de cerca de 43% em cinco anos.

Por trás de cada número, há uma família suspensa no tempo.

O “luto eterno” de quem fica

Para o delegado Pedromar Augusto de Souza, do Grupo de Investigação de Desaparecidos (GID), que atua exclusivamente em Goiânia, o desaparecimento impõe uma dor diferente.

“Desaparecimento é um luto eterno”, afirma. “É um luto sem corpo, sem resposta. A família não consegue fechar o ciclo.”

Enquanto os dados estaduais mostram crescimento contínuo, a capital apresenta um cenário particular: índices elevados de localização.

Segundo o delegado, em 2024, Goiânia registrou 688 desaparecidos. Desses, 646 foram localizados — índice de 93,89% entre maiores. Em 2025, a taxa subiu para 96,47% entre maiores e praticamente 100% entre menores.

“Tudo acima de 90%. O índice mais baixo que tivemos foi 93%”, ressalta.

Mas, mesmo com alta taxa de resolução, os registros também aumentaram: 3% entre maiores e 4% entre menores de 2024 para 2025.

A filha que ainda espera

No caso de Wilson, o desfecho ainda não chegou.

Ele tem enfisema pulmonar e utilizava bombinha diariamente. Tomava remédio para diabetes e depressão. Não tinha histórico de Alzheimer ou demência. Era caseiro, metódico, tinha horários rígidos para banho e refeições.

“Meu pai não era de sair. Quando saía, era comigo. A gente era muito unido”, diz Patrícia.

Wilson da Hora | Foto: Divulgação

Após o desaparecimento, a família percorreu hospitais, pronto-socorro psiquiátrico, unidades do SAMU, bombeiros, Centro POP, casas de acolhimento. Dividiram-se em grupos para vasculhar Goiânia.

“Eu andei a cidade inteira olhando moradores de rua, procurando ele.”

Ela mesma fez cartazes, abordou viaturas da Polícia Militar, buscou apoio político. Chegou ao governador, pediu reforço nas buscas.

“No começo eu achei demorado. O primeiro contato da delegacia especializada foi 20 dias depois.”

Posteriormente, segundo ela, houve maior empenho. Um superintendente entrou em contato. O caso passou a ser acompanhado. Mas nenhuma pista concreta surgiu.

“Se eu não tenho notícia ruim, eu acredito que meu pai está vivo”, afirma.

A família já realizou coleta de DNA. Até hoje, nenhuma correspondência foi encontrada.

Quando a busca termina bem

Nem todas as histórias permanecem em aberto.

Margareth de Sousa Silva viveu dias de desespero quando a filha, Andressa Silva Pinheiro, desapareceu em agosto. Ela registrou ocorrência, procurou a imprensa e recebeu apoio do GID.

“Eles foram muito carismáticos, muito eficazes. Só tenho que agradecer”, conta.

Andressa sumiu no dia 24 de agosto e foi localizada no início de setembro.

“Eu não comia, não dormia. Só chorava. Quando a delegada me deu a notícia, eu só dizia ‘obrigada, Deus’.”

A fala emocionada de Margareth contrasta com a incerteza vivida por Patrícia. Entre um reencontro e um mistério, a linha que separa esperança e angústia é tênue.

O caso Vanusa e a invisibilidade

Outra história que ecoa nos corredores da delegacia é a de Vanusa, mulher em situação de rua que vivia há cerca de dez anos nas proximidades da Vila Nova. Ela desapareceu. Sem sobrenome confirmado, sem documentos.

O Movimento da População em Situação de Rua denuncia que ela teria sido removida para outro estado. Não há confirmação.

O primeiro passo é fazer o boletim. Tudo na polícia começa com a ocorrência. É como a certidão de nascimento do caso, explica Pedromar.

Ele lembra que não é necessário ter documentos para registrar. Nome e o máximo de informações possíveis já permitem iniciar a busca.

Mas há limites legais: “Situação de rua não é caso policial. É social. Se localizamos e a pessoa não quer voltar, avisamos a família e damos baixa.”

Delegado Pedromar Augusto de Souza, do Grupo de Investigação de Desaparecidos (GID) | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

Golpes e exposição

Em meio ao desespero, muitas famílias acabam expostas a criminosos.

“Quando divulgam telefone pessoal, começam as ligações: ‘Vi seu parente, manda dinheiro para gasolina’. São golpes”, alerta o delegado.

Patrícia confirma que recebeu inúmeras ligações durante a repercussão do caso do pai. “Eu pedia sempre: tira uma foto e manda. Porque meu pai tem uma aparência comum.”

A orientação é utilizar apenas os canais oficiais da Polícia Civil e evitar divulgar contatos particulares em redes sociais.

Reencontro após 40 anos

Aos 41 anos, Ludmila Gomes Duarte procurou a Polícia Civil em busca de respostas sobre a própria origem e acabou iniciando uma investigação que pode resultar no reencontro com a mãe biológica, Maria Luiza Gomes Soares, de 68 anos. O caso avançou após Ludmila participar de uma campanha nacional de coleta de DNA realizada no ano passado em Goiânia.

A iniciativa integra o banco nacional de perfis genéticos, que permite a comparação de material biológico em todo o país. Com o registro do boletim de ocorrência e o fornecimento de informações sobre o nome da mãe, a polícia deu início às diligências.

De acordo com o delegado responsável pelo grupo de investigação de desaparecidos, o trabalho envolveu levantamento em sistemas policiais, consultas em bases abertas e checagem de informações históricas. “Anualmente, a polícia realiza uma campanha nacional de coleta de DNA justamente para identificar pessoas desaparecidas em todo o país. Esse material pode ser comparado com dados de qualquer estado”, afirmou. Segundo ele, além da análise genética, as equipes verificaram dados como idade, local de nascimento, período do afastamento e relatos coincidentes das duas partes.

Ludmila Gomes e a mãe, Maria Luiza Gomes | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

A possível mãe foi localizada após cruzamento das informações fornecidas por Ludmila com registros existentes. Conforme o delegado, os indícios apontam para compatibilidade entre as histórias. “O nome completo, a idade, o período da entrega e a localização são compatíveis. Tudo indica que se trata de mãe e filha, mas a confirmação oficial depende do exame de DNA”, explicou. A coleta do material genético foi encaminhada à Polícia Técnico-Científica, responsável pela análise laboratorial.

Emocionada, Ludmila relatou que nunca teve contato com a mãe biológica e que cresceu com outra família. “Eu nunca tive contato nenhum. A gente tem curiosidade de saber da própria história, de entender o que aconteceu”, disse ao Jornal Opção. Maria Luiza também falou sobre a expectativa pelo resultado. “Se for de Deus, vai ser confirmado. Eu era muito jovem e não tinha condições na época”, declarou. O laudo deve ficar pronto nas próximas semanas e poderá encerrar mais de quatro décadas de incerteza.

A vida depois do desaparecimento

Na família de Patrícia, a ausência se soma a outras perdas. A mãe morreu atropelada cinco anos antes. O avô faleceu pouco antes disso. “Desde então, parece que a nossa vida virou uma sequência de perdas.”

A avó, que considera Wilson como filho, adoeceu emocionalmente. “A gente continua unido. Mas é uma dor que não fecha.”

Ela deixa um apelo: “Observem mais as pessoas na rua. Às vezes pode ter alguém perdido, precisando de ajuda, e a gente não vê porque está com pressa.”

Também recomenda o uso de pulseiras ou chips de identificação para idosos.

“Nunca imaginei que isso seria necessário. Hoje eu vejo o quanto é importante.”

Entre estatísticas e silêncios

Enquanto os números estaduais seguem crescendo, a polícia em Goiânia destaca índices elevados de localização. Mas as estatísticas não aliviam quem ainda espera.

Para Margareth, o reencontro foi milagre.

Para Patrícia, a esperança é resistência.

E para o delegado Pedromar, cada ocorrência é uma história que precisa ser tratada com urgência e humanidade.

“Desapareceu? Existe ocorrência. Sem boletim, não existe investigação.”

Entre boletins, câmeras que cortam imagens e famílias que não desistem, Goiás convive com um fenômeno que mistura vulnerabilidade social, conflitos familiares e dramas pessoais profundos.

E para quem aguarda notícias, cada dia é um intervalo suspenso entre o medo e a fé.

Leia também: Goiás é o Estado com melhor produtividade de café por hectare do Brasil

O post Apesar do crescimento de casos em Goiás, mais de 90% dos desaparecidos em Goiânia são localizados apareceu primeiro em Jornal Opção.

Читайте на сайте