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Prosa de Lobo Antunes encantou Harold Bloom mas não a turma do Nobel de Literatura

José Saramago X António Lobo Antunes

Há um Fla x Flu literário em (e fora de) Portugal. De um lado, com mísseis russos, os leitores de José Saramago. De outro, com mísseis americanos do norte, os leitores de António Lobo Antunes.

Os adversários de José Saramago dizem que Lobo Antunes merecia o Nobel de Literatura. Os rivais de Lobo Antunes postulam que José Saramago mereceu o Nobel.

Na verdade, os dois lados têm razão. Porque José Saramago e Lobo Antunes mereciam o Nobel de Literatura. Não apenas um, e sim os dois.

Lobo Antunes e José Saramago: rivais literários de Portugal | Fotos: Reproduções

Comparar José Saramago e Lobo Antunes é complicado, porque são diferentes. Até muito diferentes. Mesmo pertencendo ao escrete dos loboantunistas, admito que José Saramago escrevia bem. Até muito bem. “Memorial do Convento” é um belo romance.

José Saramago era filho do realismo socialista soviético — gestado pela turma de Ióssif Stálin. Mas fico com a impressão de que a súcia do assassino de Trótski não apreciaria o escritor comunista. Porque não era totalmente realista socialista. Era, por assim dizer, o Jorge Amado luso.

Dostoiévski, Tolstói e Juan Rulfo

Lobo Antunes pertence à turma dos escritores inventivos. Como William Faulkner, Carlo Emilio Gadda e João Guimarães Rosa, é o filho português de James Joyce e, paradoxalmente, de Marcel Proust. Não deixa de ser filho também de Louis-Ferdinand Céline, Laurence Sterne e Édouard Dujardin.

O prosador era leitor quase fanático de Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói (apreciava sugerir a leitura de “A Morte de Ivan Ilitch”, uma noveleta do notável russo). Tinha o hábito de recomendar a leitura de Juan Rulfo (que aprendeu muito com María Luisa Bombal), autor de “Pedro Páramo” e matriz da prosa de García Márquez.

Mesmo discípulo, se discípulo era de alguém, Lobo Antunes era, por assim dizer, um seguidor rebelde. Sua literatura é diferente de quase tudo, inclusive da de Joyce, o pai dos inventivos.

Trata-se de uma literatura enviesada, propositadamente enviesada, que cobra não um leitor genial, e sim um leitor atencioso e interessado (da mesma forma deve ser lido Thomas Pynchon).

Ele não tenta complicar a vida do leitor. Busca apenas torná-lo participante de uma literatura (e jornada) altamente criativa. Cada obra de Lobo Antunes “educa” o leitor para sua obra seguinte (ou antecessora).

Porque a leitura da prosa de Lobo Antunes exige que o leitor observe com cuidado tanto a história em si — que é o que a maioria dos leitores buscam, naturalmente — quanto a narrativa, quer dizer, os modos de narrar, que são uma espécie de outra história. O narrado e a maneira de narrar são cruciais para fruir, com mais intensidade, a prosa de Lobo Antunes.

Forma e conteúdo na obra de Lobo Antunes são indissociáveis. Sempre. São hermanas.

Romancista, cronista e poeta

O que recomendo de Lobo Antunes? Os romances, claro. Mas há também o excelente cronista — mais leve porém não menos denso.

De um escritor deve se ler tudo? Os leitores comuns — os melhores para os escritores, até porque em maior número — não precisam ler tudo. A leitura da obra completa de um escritor deve ficar sob a responsabilidade dos especialistas.

Li muito, mas não tudo, de Lobo Antunes (que se dizia “um anarquista moderado. Uma espécie de Orson Welles suíço”). O que recomendo? Tudo. Ou quase tudo.

Talvez seja interessante começar por “Memória de Elefante”, de 1979. Porque, sendo o primeiro, é possível verificar se Lobo Antunes começou grande, ou titubeando. O que digo? Que começou gigante.

Lembro-me que, na década de oitenta, presenteei “Os Cus de Judas” para uma mestranda em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ela assustou-se com o título, é claro. Mas, quando o leu, me disse: “Que maravilha. Fui ao Céu, não aos Cus de Judas, e voltei para contar”. Rimos.

Daí em diante, recomendo que se leia qualquer um dos livros de Lobo Antunes, porque são autônomos: sustentam-se de pé, isoladamente, nas estantes e ante os cérebros dos leitores dedicados à uma prosa complexa (o que não quer dizer inacessível) e que, parecendo brutal, é de uma delicadeza ímpar.

Do “Auto dos Danados”, de 1985, pode-se saltar para “Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo” e “Eu Hei de Amar uma Pedra”, ambos de 2003. Os títulos parecem estrambóticos, mas são, a rigor, poéticos.

Nas livrarias, sobretudo nos seus portais, o leitor poderá encontrar: “O Meu Nome É Legião”, “Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?”, “Comissão de Lágrias”, “Explicação dos Pássaros”, “Não É Meia Noite Quem Quer”, “O Arquipélago da Insônia”, “Sôbolos Rios Que Vão”. E, claro, “Fado Alexandrino”.

Não li as “Cartas de Guerra”, correspondência entre Lobo Antunes e Maria José Fonseca e Costa, primeira mulher do escritor. Entrou para minha lista penelopiana de leitura. Assim como seu último livro, “O Tamanho do Mundo” (trigésimo romance!).

Maria João Martins, em ótimo obituário para o “Diário de Notícias”, jornal de Portugal, recolhe um trechinho substantivo de “O Tamanho do Mundo”: “A solidão mede-se pelos estalos dos móveis à noite, quando a poltrona em que me sento de súbito desconfortável, enorme, e os objetos aumentam nos happerons, inclinados para mim, a escutarem”.

Clarice Lispector e Fernando Pessoa: plagiários?

Lobo Antunes não ganhou o Nobel de Literatura — prêmio, por sinal, que parecia mais esperado por seus leitores do que por ele mesmo (“estou farto de ouvir falar do Nobel”).

Clarice Lispector: uma das mas notáveis escritoras globais | Foto: Reprodução

Quem perdeu? O Nobel, o mesmo que não agraciou Liev Tolstói, Fernando Pessoa, James Joyce, Graciliano Ramos, Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Eugénio Andrade (cuja poesia é belíssima), José Cardoso Pires (que tenho lido com interesse), Agustina Bessa-Luís, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder e Adélia Prado.

O crítico americano do norte Harold Bloom, um dos mais influentes em dois séculos, o 20 e o 21, deu-lhe um Nobel ao escrever: Lobo Antunes é “um dos escritores vivos que mais importará no futuro”. Bem, o futuro chegou. Porque o autor português importa muito.

Lobo Antunes era um “crítico” de opiniões fortes. Sugeriu, de maneira equivocada, que Clarice Lispector “plagiou” Virginia Woolf (https://tinyurl.com/mwh5dc74). Harold Bloom falaria em “angústia da influência” — e pararia por aí. O português dizia sobre “O Livro do Desassossego”: “Aborrece-me até à morte”. “A poesia do heterônimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Whitman; a de Ricardo Reis, de Virgilio”.

Fernando Pessoa: poeta de múltiplos talentos

Acrescentando, de maneira maldosa: “Eu pergunto-me se um homem que nunca f… pode ser um bom poeta”. Pois é: não sei se Fernando Pessoa nunca teve relações sexuais, mas ninguém pode dizer, exceto Lobo Antunes, que não era grande poeta, admirado, entre outros, por Harold Bloom e Leyla Perrone-Moisés.

A Editora Dom Quixote prepara o lançamento de um livro com a poesia de Lobo Antunes, que lamentava “não ter sido poeta”. Poucos prosadores consumados se deram bem na poesia — um deles é D. H. Lawrence.

Lobo Antunes morreu na quinta-feira, 5, aos 83 anos. Sua obra vai torná-lo tão eterno e moderno quanto Carlos Drummond de Andrade. Parece que sim. Tende a passar pelo texto do tempo como Homero, Virgilio e Dante.

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