Pai improvisava fisioterapia após AVC e inspirou filha a cuidar de pessoas
Nada começou com um grande plano na vida de Krislere Silva , mas com uma inquietação silenciosa, aquela sensação de que ainda falta alguma coisa. Fisioterapeuta em Campo Grande por muitos anos, ela decidiu fazer algo que muita gente costuma adiar indefinidamente: voltar para a faculdade. Não era qualquer curso. Era medicina. E se formou aos 47 anos. No podcast do Campo Grande News , Krislere decidiu contar que a decisão não veio de uma hora para outra. Veio de um caminho longo, que começa bem antes da vida adulta. “A Krislere é uma menina que saiu do interior, né? Uma mulher que saiu do interior com muitos sonhos, uma filha, para procurar uma vida melhor e para dar uma vida melhor para minha filha”, contou. Filha de um casal de Corumbá, ela cresceu em Rio Verde e foi adotada ainda pequena. A adoção, segundo ela, nunca foi um peso, pelo contrário. “A adoção para mim era uma forma de gratidão pelas pessoas que me acolheram com o coração e me incentivaram a ser quem eu sou.” Mas foi uma experiência dentro de casa que ajudou a definir seu caminho profissional. Quando era criança, viu o pai enfrentar as sequelas de um AVC em um lugar onde quase não havia acesso a tratamento. “Era muito difícil em Rio Verde para você ter acesso à saúde”, lembrou. Sem fisioterapia disponível, ele improvisava exercícios sozinho. “Eu olhava e falava: ‘Meu Deus, a vontade dele voltar a andar era tanto’. Ele pegava aquelas borrachas e fazia a própria fisioterapia. E ele falava: ‘Eu vou voltar a andar, eu vou voltar a andar’.” Ali nasceu a ideia de trabalhar cuidando de outras pessoas. “Eu falei: ‘Se um dia eu tivesse condições, eu também ia procurar cuidar dos outros através da minha profissão’.” Krislere se formou em fisioterapia e construiu carreira atendendo principalmente pacientes de pós-operatório em cirurgias plásticas. Com o tempo, passou a estudar terapias integrativas e ampliou a atuação. Mas a medicina continuava rondando. “Eu vou dizer para você que é além de gratificante. Não é uma coisa assim fácil, mas também não é impossível.” A decisão veio já na casa dos 40 anos. Para estudar, ela passou a dividir a vida entre o Paraguai, onde cursou medicina, e Campo Grande, onde ainda atendia pacientes. “Eu ficava entre a faculdade e, aos finais de semana, atendia em Campo Grande.” No meio desse processo veio a pandemia. E com ela, uma experiência que marcou profundamente a trajetória. Durante o período mais crítico da Covid-19, ela trabalhou na UTI de Jardim, no interior de Mato Grosso do Sul. “Os profissionais da saúde, nessa hora, eles tiveram que se unir para trabalhar. Às vezes a gente deixava gente em casa e ia cuidar das outras pessoas.” “Você vai se formar médica velha” Ao contar sobre a decisão de estudar medicina, Krislere diz que ouviu muitos questionamentos. Alguns mais duros. “Teve um comentário que falou assim: ‘Nossa, você vai se formar médica velha’.” A resposta veio na mesma mesa de almoço. “Eu olhei e falei: ‘Mas então, você é uma velha médica e vai dar tudo certo. As pessoas também envelhecem’.” Ela diz que comentários desse tipo acabaram virando combustível. “Eu sempre tentei levar para o outro lado. Eu falo que aquele desincentivo vira um incentivo.” Hoje, formada, divide a atuação entre a fisioterapia e a medicina, principalmente na área integrativa. “Eu preciso da fisio para atuar na medicina e preciso da medicina para atuar na fisioterapia. Porque é o paciente que vai sair ganhando.” Durante a conversa, uma frase volta várias vezes quando Krislere fala sobre mudança de vida. “O tempo vai passar.” Segundo ela, essa foi a forma que encontrou para lidar com medo, críticas e insegurança. “O tempo vai passar de qualquer forma. Ou você fazendo ou não fazendo. Então que você faça enquanto esse tempo passa.” A escolha de recomeçar também teve impacto dentro de casa. A filha, que cresceu vendo a rotina intensa de trabalho da mãe, acabou seguindo o mesmo caminho. “Do nada ela falou: ‘Mãe, eu vou cursar medicina também’. Eu falei: ‘Então seja bem-vinda’.” Hoje, a filha está nos últimos anos do curso. Ao longo da carreira na saúde, Krislere diz ter acumulado histórias difíceis e outras que ajudam a explicar por que escolheu esse caminho. Uma das mais marcantes aconteceu ainda na época da fisioterapia, quando atendeu uma mulher que havia sofrido um AVC. “Ela estava muito debilitada, não parava em pé.”Depois de meses de tratamento, veio a surpresa. “Teve um dia que eu cheguei na casa e ela estava em pé me esperando.” Hoje, conta Krislere, a paciente voltou a ter uma rotina ativa. “Ela tá com a vida estabelecida, tá casada, feliz da vida, viaja, anda de bicicleta, de moto, que era o sonho dela.” Já na medicina, um momento que a marcou foi acompanhar partos durante a faculdade. “Eu falo que é uma virada de chave quando você pega uma pessoa que está começando a vida nos braços.” Um recado para quem acha que é tarde No fim da conversa, Krislere voltou ao tema que atravessa toda a sua história: a ideia de que existe idade certa para começar algo. Ela não acredita nisso. “Hoje em dia nós mulheres podemos chegar em qualquer lugar que nós queremos.” E deixa um conselho simples para quem guarda um plano na gaveta. “Não desista dos seus sonhos. Procure evoluir cada dia mais no lugar que você está. Mesmo que tudo deu errado, respira, foca no que quer e vai em frente que vai dar certo.” Para agendamentos com Krislere Silva , acesse o Instagram @fisioterapiakags . Conteúdo de responsabilidade do anunciante.