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Quem controla a narrativa da guerra? Jornalista denuncia domínio da mídia ocidental na cobertura de conflitos

O Jornal Opção conversou com a jornalista e advogada internacionalista Giovanna Vial para compreender a profundidade da cobertura midiática dos conflitos recentes no Oriente Médio. Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Direitos Humanos e Ação Humanitária pela Sciences Po Paris (PSIA), Giovanna acompanhou presencialmente conflitos armados recentes — como a Guerra da Ucrânia, Guerra de Gaza e a Guerra dos 12 Dias. A partir dessa experiência, ela analisa como a mídia tradicional pode contribuir para a construção de determinadas narrativas sobre os conflitos.

“Na mídia hegemônica tradicional global, a narrativa oficial é a narrativa ocidental, dos Estados Unidos e de Israel. A narrativa subalterna — aquela colocada em dúvida — é a narrativa do lado contrário, seja Irã, Venezuela ou qualquer outro país”, relatou em entrevista ao Jornal Opção.

Para a especialista, essa estratégia tende a deslegitimar versões e informações que não se originam do consenso político predominante. Ao mesmo tempo, ela afirma que termos técnicos e jurídicos podem variar conforme a conveniência política.

Como exemplo, Vial cita a cobertura da Guerra de Gaza. Segundo ela, há diferenças na forma como determinados fatos são noticiados. Enquanto mortes ocorridas em Israel aparecem como um dado factual consolidado (como em “Ataque do Hamas deixa 8 feridos em Tel Aviv”, do G1), as mortes em territórios considerados opositores costumam ser acompanhadas de atribuições ou questionamentos (“Ataques de Israel matam mais de 100 pessoas em Gaza, diz Hamas”, também do G1).

De acordo com Giovanna, esse padrão está relacionado a uma lógica histórica do colonialismo ocidental, que tende a desconsiderar as narrativas de povos que não fazem parte do eixo dominante.

A advogada avalia que essa perspectiva foi incorporada com maior força à política internacional do século XXI pelos Estados Unidos após os atentados às Torres Gêmeas, em 2001, que marcaram o início da chamada Guerra ao Terror e a subsequente invasão do Afeganistão.

Nesse contexto, ela argumenta que foi consolidado um conceito político de “terrorismo” que não corresponde necessariamente ao direito internacional e que serviria, principalmente, aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. “Os jornais tradicionais hegemônicos reproduzem a ideia construída politicamente de que terrorismo é aquilo feito contra o Ocidente, o que depende do país em que você esteja”, afirmou.

Ela questiona: “Mas aquilo que o Ocidente faz contra qualquer pessoa ou população fora do Ocidente também não é terrorismo?”

Giovanna também cita a atual guerra de agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que teria como justificativa impedir o desenvolvimento de armas nucleares e derrubar um regime religioso extremista.

Para a especialista, há uma contradição no discurso norte-americano ao defender ou manter relações estratégicas com regimes fundados em forte religiosidade política, como o da Arábia Saudita, liderada por Mohammed bin Salman. “Não existe um governo mais autoritário — do ponto de vista religioso — do que a própria Arábia Saudita”, disse.

“Mas esse extremismo religioso não é comentado porque os Estados Unidos não querem libertar os sauditas do seu governo. Então, trata-se de uma retórica usada como ferramenta de manipulação para justificar uma guerra que é injustificável.”

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