Com apoio de Nelsinho e Tereza, CPI do caso Master depende de Davi Alcolumbre
A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma frente de investigação que vai muito além do sistema financeiro. O caso expõe uma engrenagem compartimentada que começa na infiltração do crime na economia formal, atravessa fintechs e fundos de investimento na Faria Lima e alcança o coração do sistema institucional da República, envolvendo Banco Central, Polícia Federal, Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Na decisão que autorizou a prisão, o ministro André Mendonça citou o bloqueio de mais de R$ 2 bilhões mantidos em conta na CBSF DTVM (conhecida no mercado como Reag) liquidada em janeiro pelo Banco Central na esteira das investigações contra o Banco Master, instituição em torno da qual gravitam diversas operações suspeitas. Segundo a decisão, os recursos foram movimentados em nome do pai do banqueiro após a libertação de Vorcaro, em novembro do ano passado. A gestora é investigada por suspeitas de fraude ao sistema financeiro e lavagem de dinheiro por meio de fundos identificados na Operação Carbono Oculto, em transações com empresários do setor de combustíveis ligados, segundo apurações, ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Parte desse circuito começa em atividades investigadas em vários estados, incluindo Iguatemi, no extremo sul de Mato Grosso do Sul, na faixa de fronteira com o Paraguai. No município, um conjunto de distribuidoras instalado na Rodovia da Balsinha passou a ser investigado como um dos polos operacionais de estruturas empresariais utilizadas para movimentação de recursos que posteriormente apareceriam em operações financeiras ligadas a fundos e instituições do mercado. As revelações também começaram a produzir efeitos políticos. No Senado, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou pedido de criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar eventuais relações entre o banqueiro e integrantes da cúpula do sistema judicial e financeiro. O requerimento reuniu 35 assinaturas, oito a mais que o mínimo necessário para instalação da comissão, entre elas as dos senadores sul-mato-grossenses Nelsinho Trad (PSD-MS) e Tereza Cristina (PP-MS). A instalação da CPI ainda depende de decisão da presidência do Senado, Davi Alcolumbre. Base do circuito - Na origem dessa engrenagem aparece um conjunto de distribuidoras investigadas em operações sobre fraude tributária e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Parte delas está ligada ao empresário Mohamad Hussein Mourad, considerado foragido desde a deflagração da operação Carbono Oculto, em agosto do ano passado. Segundo investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, o grupo teria estruturado uma cadeia empresarial que incluía distribuidoras de combustíveis, empresas de logística e companhias utilizadas para movimentar recursos entre diferentes estados. Entre as empresas citadas nas apurações aparecem Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool, Arka Distribuidora de Combustíveis, Safra Distribuidora de Petróleo, Start Petróleo e Maximus Distribuidora. Muitas delas operavam no mesmo endereço em Iguatemi. Relatórios reunidos na investigação indicam movimentação financeira próxima de R$ 10 bilhões em quatro anos em operações concentradas na região. Fintechs - Acima da base empresarial aparece uma segunda camada da engrenagem investigada: instituições financeiras intermediárias utilizadas para pulverizar transferências e dificultar o rastreamento dos recursos. As investigações identificaram o uso de fintechs e empresas de pagamento para movimentar valores entre diferentes empresas do grupo empresarial investigado. Entre as plataformas citadas nas apurações aparecem BK Bank e Bankrow, mencionadas em relatórios como parte de estruturas utilizadas para circulação de recursos entre empresas e veículos financeiros. Relatórios da Receita Federal indicam que valores vinculados a integrantes do grupo empresarial foram transferidos por meio dessas fintechs para estruturas ligadas a fundos de investimento. Para investigadores, essa etapa funciona como um mecanismo de fragmentação das transferências, dificultando a identificação da origem dos recursos. Fundos - Os fundos de investimento aparecem nas apurações como uma das camadas de blindagem patrimonial investigadas no caso. Entre os veículos citados estão Hans 95, Reag Growth e Anna FIC, além de fundos utilizados para movimentações internas entre diferentes estruturas financeiras. Esses fundos eram administrados pela Reag DTVM, gestora sediada na região da Faria Lima, em São Paulo. Segundo as investigações, fundos administrados pela empresa teriam realizado operações financeiras com empresas vinculadas ao grupo empresarial investigado e também com o Banco Master, incluindo aplicações em instrumentos de crédito emitidos pela instituição. Para investigadores, a estrutura envolveria uma cascata de fundos interligados, permitindo transferências sucessivas entre diferentes veículos financeiros antes da reinserção dos recursos no sistema formal. O mapa traçado pelas investigações indica um circuito que começa em empresas operacionais do setor de combustíveis, passa por fintechs utilizadas para pulverizar transferências financeiras, chega a fundos de investimento administrados por gestoras da Faria Lima e termina em operações bancárias que hoje estão no centro das investigações federais. Pressão política - O caso também passou a provocar repercussões políticas em Brasília. Nos bastidores do Senado, a avaliação é de que o episódio ainda pode produzir novos desdobramentos. Parte da pressão envolve questionamentos dirigidos ao ministro Alexandre de Moraes após a revelação de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Em nota divulgada após a repercussão do caso, o escritório afirmou que prestou serviços jurídicos ao banco e que não há relação do ministro com o contrato. A crise ganhou novo fôlego com a divulgação de mensagens encontradas no celular de Vorcaro que indicariam interlocução com Moraes em 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão do empresário. O ministro contesta a interpretação das mensagens e nega qualquer irregularidade. Mesmo assim, o episódio passou a ser utilizado por parlamentares da oposição como argumento para defender a instalação de uma CPI. Paralelamente, o ministro Dias Toffoli enfrenta questionamentos relacionados à empresa familiar Maridt, que participou de uma negociação envolvendo participação no resort Tayayá, no Paraná, posteriormente adquirida por um fundo ligado a pessoas próximas ao banqueiro. Investigações da Polícia Federal mencionam transações financeiras e mensagens no celular de Vorcaro que citariam pagamentos vinculados ao empreendimento. Toffoli reconheceu participação societária na empresa, mas nega qualquer relação financeira direta com o controlador do Banco Master. No Congresso, parlamentares avaliam que o caso pode evoluir à medida que avancem as investigações policiais e políticas. Historicamente, crises institucionais dessa natureza costumam se desenvolver a partir da combinação entre apurações da Polícia Federal e investigações parlamentares, como CPIs, que podem resultar em processos de responsabilização institucional.