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Com quem Trump está falando no Irã?

Quando sugeriu que os Estados Unidos estavam tratando conversas diplomáticas com um membro do alto escalão do Irã, o presidente Donald Trump não revelou quem era a pessoa. O anúncio do dirigente americano provocou um efeito cascata de desconfiança dentro do círculo de liderança iraniano.

Em regimes ditatoriais, nos quais há suspeitas e disputas internas por poder todo o tempo, até mesmo uma pequena observação é capaz de provocar desconfianças entre os pares. Uma declaração como essa, feita por Donald Trump, em plena guerra, desperta suspeitas entre as várias facções que dão forma ao regime dos aiatolás que neste momento é regido pela Guarda Revolucionária.

Analistas afirmam que, ao não revelar com quem está tratando, Washington está, deliberadamente, semeando incertezas dentro do regime islâmico — que, além de negar as conversas, está se questionando internamente: com quem Trump está falando?; quem autorizou discutir um acordo?; quem está traindo o sistema?

Ao mesmo tempo, esse tipo de mensagem afeta diretamente a economia global. Logo depois que Trump anunciou a possibilidade de um acordo e a interrupção dos ataques contra o Irã, o preço do barril de petróleo despencou e os mercados reagiram de imediato, o que demonstra como a questão geopolítica moderna vai muito além do uso da força militar, e como pode afetar diretamente a estabilidade global.

Às vezes, a arma mais poderosa, em meio ao conflito, é a estratégia. E, muitas vezes, a melhor estratégia é a incerteza.

Trump disse, por meio de redes sociais, que as conversas estão sendo tratadas entre representantes dos Estados Unidos e do Irã.

O presidente ainda especificou que os altos oficiais iranianos com quem seu governo estava conversando eram figuras públicas e de grande influência no regime.

Bagher Ghalibaf: parlamentar iraniano | Foto: Reprodução

Trump, complementando a mensagem, sublinhou que o tema principal a ser tratado entre os dois lados, era o fim da guerra e que prevaleceriam os termos impostos pelos EUA.

Por fim, Trump revelou quem são os enviados americanos para a negociação diplomática, entre eles seu genro, Jared Kushner, e Steve Witkof, além de agentes da CIA e mediadores da Turquia.

A semântica na mensagem presidencial é notável. Ele se refere ao Irã usando o termo “país” e não “governo” ou “República Islâmica do Irã”, o nome oficial do regime, ou qualquer termo que denote uma entidade estatal.

Ao invés disso, Trump acena que está tratando com alguém que não necessariamente faz parte do alto escalão do regime islâmico.

As “conversas” de Donald Trump

Aparentemente, a mensagem parece ter sido cuidadosamente redigida por assessores do presidente americano. Trump se refere a “conversas”, não usa “discussões” ou “negociações”, nem mesmo “sérias conversas”. “Conversas” é considerado o último termo em inglês utilizado para tratativas diplomáticas.

Como a imprevisibilidade é algo presente no mundo de Trump, pode ser que, de fato, as conversas diplomáticas estejam ocorrendo entre os dois países e que os interlocutores iranianos sejam indivíduos que estão fora do “establishment” clerical ou do atual governo.

Há suspeitas de que os Estados Unidos estão falando diretamente com o parlamentar iraniano Bagher Ghalibaf, que é considerado uma figura significativa no regime. Mas ele não faz parte do alto escalão e não tem poder de decisão.

Outra possibilidade seria o presidente Masoud Pezeshkian ou até o ex-presidente Hassan Houhani, que continua sendo uma peça importante nos quadros do regime.

O Irã continua negando que haja qualquer tipo negociação com os EUA neste momento. No entanto, um alto oficial do regime revelou à agência Reuters que Ghalibaf estaria em contato com os americanos. Porém, ele mesmo negou que teve qualquer conversa com os Estados Unidos.

É possível que Trump esteja só blefando. Mas, se estiver mesmo negociando com Ghalibaf, será que o enviado iraniano conseguirá convencer a Guarda Revolucionária?

A Guarda Revolucionária já anunciou que não negocia com os Estados Unidos e que agora vai até o fim no conflito. Seus dirigentes são mesmo camicases?

Ainda é cedo para determinar que rumo a guerra está tomando. Mas, se houver de fato essa abertura para negociações, então este é mesmo um avanço significativo.

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