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Livro de Rosa Montero sobre a cientista Marie Curie é um manifesto sobre o que não nos mata

Helder D’Araújo

Especial para o Jornal Opção

A finitude é um tema atemporal e, de certa forma, implacável. Desde os relatos míticos até a severidade bíblica de que “o salário do pecado é a morte”, a humanidade tenta negociar com o fim criando a noção de alma — algo que sobreviva ao colapso do corpo. Em “A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver” (Todavia, 208 páginas, tradução de Mariana Sanchez), a escritora espanhola Rosa Montero, de 75 anos, não nega a perda, mas confessa o que realmente lhe dói: a percepção de si mesma como um ser finito.

O livro é um híbrido fascinante. Devoradora de biografias, Rosa Montero utiliza a trajetória de Marie Curie como uma bússola para navegar em suas próprias incertezas. A obra nasce de um desafio: ler o diário de luto de Curie no exato momento em que a própria Rosa enfrentava a perda de seu companheiro, Pablo.

Rosa Montero não se limita a narrar sua dor — projeta na biografia e na resiliência de Marie. Por meio de uma narrativa bem-humorada e ácida, reconstitui a parceria de Marie e Pierre Curie — o casal que desafiou limitações e os ditames conservadores da época.

A autora utiliza recursos visuais, como a fotografia, para resgatar fragmentos da juventude de Pablo, enquanto reconstrói a trajetória da “polonesa durona” que trocou sua terra natal pela França em busca de estudo e reconhecimento.

O texto flui entre a glória do Nobel e a tragédia doméstica: o acidente de carruagem que esmigalhou o crânio de Pierre, deixando Marie em um estado de perplexidade absoluta. “Ele estava agorinha aqui, vivo”, pensa diante do ridículo da morte súbita.

Crença na sincronicidade

Um ponto alto da prosa de Rosa Montero é o que ela chama de “serialidade”. Se existe o “jovem místico”, Rosa é uma escritora mística — não por esoterismo barato, mas por uma crença profunda na sincronicidade (conceito caro a Jung). Ela narra como as coincidências regem seu ofício de romancista e sua vida pessoal, transformando o acaso em sentido.

Para Rosa, o mistério não reside na morte em si — afinal, “está destinado aos homens morrerem” —, mas naquilo que nos mata enquanto ainda estamos vivos. O verdadeiro temor da autora não é o rigor mortis, mas o esquecimento e a paralisia vital.

Rosa Montero: escritora espanhola | Foto: Reprodução

O que Marie Curie fez para não ser devorada pela ausência de Pierre? Ela escandalizou a sociedade com um novo amor, mergulhou na política, criou as filhas e continuou sua pesquisa científica. Diante do “grau zero da existência”, Marie escolheu viver.

Rosa Montero, por sua vez, escolhe a palavra. Embora fale pouco de Pablo (o que lhe rendeu advertências de editores, as quais ela ignorou solenemente), sua presença é sentida em cada linha sobre a finitude.

O livro é, em última análise, um manifesto sobre o que não nos mata: a capacidade de transformar sofrimento em literatura e a vida em fabulação. Se a queda é inevitável, que ela nos pegue exercendo o nosso ofício.

Helder D’Araújo, livreiro e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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