FIFA constrange o Irã e silencia diante dos Estados Unidos
A FIFA gosta de se vender como uma instituição “acima da política”, guardiã de valores universais do esporte. Mas, quando a realidade impõe dilemas morais concretos, a entidade tem demonstrado algo bem diferente: uma neutralidade seletiva, moldada por conveniências e não por princípios.
O caso mais recente envolve o Irã. Após ataques militares conduzidos pelos Estados Unidos em conjunto com Israel, a FIFA decidiu manter o cronograma da Copa do Mundo de 2026. E mais: rejeitou qualquer possibilidade de transferir os jogos da seleção iraniana para sedes alternativas como México ou Canadá.
Na prática, isso significa obrigar uma seleção a competir em território de um país diretamente envolvido em ataques contra sua própria nação. Não se trata apenas de futebol. Trata-se de dignidade.
O contraste com o tratamento dado à Rússia é inevitável e incômodo. Em 2022, após a invasão da Ucrânia, a FIFA agiu com rapidez e rigor ao banir seleções e clubes russos de todas as competições internacionais.
Inicialmente, tentou uma solução “neutra”, proibindo bandeira e hino. Mas, diante da pressão internacional, avançou para a exclusão total. Agora, diante de bombardeios envolvendo uma das principais potências globais, e justamente uma das sedes do próximo Mundial, a entidade se limita a “monitorar a situação”.
Por que, neste caso, não há sanções? Por que não se discute sede neutra? Por que não se fala em proteger atletas de um contexto político extremo? A resposta parece menos jurídica e mais geopolítica.
A FIFA costuma argumentar que “o futebol une povos” e que não cabe à entidade resolver conflitos internacionais. O próprio presidente, Gianni Infantino, já afirmou que o papel da organização é promover o esporte, não intervir em crises globais.
Mas essa justificativa desmorona diante da prática. Se o futebol não deve se misturar com política, por que a Rússia foi excluída? Se deve, por que o Irã é tratado de forma tão diferente? A verdade é que o futebol nunca esteve isolado da política e a FIFA sabe disso.
Copas do Mundo são eventos profundamente políticos, desde a escolha das sedes até as decisões disciplinares. Fingir neutralidade, enquanto se aplicam critérios distintos dependendo do país envolvido, não é isenção. É conveniência.
A humilhação esportiva e simbólica
Obrigar o Irã a jogar nos Estados Unidos não é apenas uma decisão logística. É uma imposição simbólica pesada. Imagine atletas entrando em campo enquanto, dias ou semanas antes, seu país foi alvo de ataques do mesmo território onde estão competindo.
A pressão psicológica, o constrangimento e o impacto emocional são evidentes. Mais do que isso: a FIFA ignora que havia alternativas viáveis. A Copa de 2026 será disputada em três países.
Transferir jogos para México ou Canadá não comprometeria o torneio, mas preservaria um mínimo de coerência e sensibilidade. O episódio expõe uma verdade desconfortável, que a FIFA não aplica regras universais.
Ela reage conforme o contexto político, econômico e, sobretudo, conforme os atores envolvidos. A Rússia foi isolada. O Irã é constrangido. Os Estados Unidos, país-sede e potência global, sequer entram no debate.
Essa assimetria não passa despercebida nem pelos torcedores, nem pelos próprios atletas. A FIFA perdeu uma oportunidade de demonstrar consistência e liderança moral. Preferiu o caminho mais fácil: manter o cronograma, evitar atritos com a potência anfitriã e sustentar um discurso de neutralidade que já não convence.
O futebol continua sendo um espaço de paixão e união, mas, sob a gestão atual, também se tornou um espelho das desigualdades do mundo. E talvez essa seja a maior derrota fora de campo.
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