Jovem de 20 anos transforma último desejo em esperança e mobiliza primeiro transplante múltiplo em 14 anos na Santa Casa
Gyovanna Pereira, de 20 anos, transformou a dor da despedida em esperança para outras famílias. Mesmo após ter a morte cerebral confirmada, a jovem doou coração, rins, fígado e córneas.
Ela enfrentava uma doença autoimune e teve a morte cerebral confirmada na antevéspera do Dia das Mães. Em meio ao luto, a família encontrou algum conforto na possibilidade de que parte dela continue viva em outras histórias. Quando a data chegar, o coração da filha seguirá batendo, ainda que em outro peito.
Suas córneas voltarão a enxergar a luz do sol. Seus rins e fígado continuarão funcionando em outros corpos. De certa forma, a vida persiste mesmo diante da força inevitável da morte.
Mais do que um gesto médico, a doação carrega um significado humano profundo: a capacidade de permanecer no mundo por meio do outro. Talvez exista nisso uma das formas mais poderosas de permanência: transformar o próprio fim em continuidade para alguém.
O ato foi reconhecido até mesmo em seus últimos instantes pelos familiares e trabalhadores do hospital, que se despediram com uma salva de palmas.
A prima de Gyovanna, Erica dos Santos, compartilhou como foi a experiência da família e o processo até a decisão pela doação de órgãos.
Esta foi a primeira vez, em 14 anos, que a Santa Casa de Goiânia realizou um transplante múltiplo de órgãos. O superintendente da unidade explicou o processo logístico necessário para a realização da operação.
“Então, a gente tem que mobilizar toda a estrutura do hospital. Precisamos da equipe de enfermagem, da equipe de psicologia, que vai abordar a família, do centro cirúrgico pronto e da UTI, porque é a UTI quem faz a manutenção desse potencial doador, para que ele continue com os sinais vitais, entre aspas, estáveis. Porque, apesar da morte cerebral, do cérebro ter parado, o coração continua batendo”, explicou.
Sobre a comunicação com a família, o Jornal Opção conversou com Anna Clara Rocha, psicóloga da UTI que acompanhou Gyovanna durante a internação, e com Marina Fonseca, enfermeira e coordenadora da unidade.
Anna explicou que, após a abertura do protocolo de morte cerebral, a equipe médica inicia uma série de exames para confirmar oficialmente o diagnóstico. Segundo ela, nesse primeiro momento, a família é informada apenas sobre o estado clínico da paciente e sobre os testes que serão realizados — sem qualquer conversa sobre doação de órgãos.
“São feitos testes e nós comunicamos à família que ela está elegível para a abertura do protocolo de morte cerebral. A partir de agora, a equipe vai realizar uma série de exames. Se ela passar nos três testes, fechamos o protocolo de morte cerebral. Nesse momento, ainda não mencionamos a possibilidade de doação”, explicou.
De acordo com a psicóloga, somente após a confirmação da morte cerebral a equipe aborda a possibilidade da doação de órgãos. Antes disso, a família teve tempo para se despedir, receber apoio psicológico e realizar visitas religiosas.
“Eles compreenderam, não tiveram nenhuma reação fora do esperado”, relatou.
Ela também contou que, segundo o namorado e outros familiares, Gyovanna já havia manifestado em vida o desejo de ser doadora, o que ajudou a família a chegar a um consenso, já que a autorização precisa ser aprovada pelos parentes.
O coração foi destinado a Brasília. Já os rins e as córneas ficaram com pacientes em Goiânia, enquanto o fígado seguiu para o Acre.
Duílio Rezende, médico de transplantes da Regional Goiás, explicou ao Jornal Opção que, no momento da entrevista, faltavam cerca de 40 minutos para a retirada do coração. Em seguida, seriam retirados o fígado, os rins e as córneas.
Enquanto a cirurgia acontece, toda a logística de transporte já começa a ser organizada para garantir a maior agilidade possível. O médico destacou a urgência do procedimento, principalmente no caso do coração.
“O ideal é que o coração seja transplantado em, no máximo, três horas. Desde o momento em que sai daqui até chegar ao outro hospital para ser implantado”, explicou.
Ele revelou ainda que equipes de diferentes especialidades atuam simultaneamente e que todo o processo dura cerca de seis horas. Ou seja, quando o coração chega a Brasília, é possível que a cirurgia em Goiânia ainda nem tenha sido finalizada.
O superintendente da Santa Casa, Pedro Ivandosvick, que também é médico intensivista, explicou como funciona o momento da implantação do coração no receptor.
“Existe uma estrutura chamada circulação extracorpórea. A gente retira o sangue do paciente e o transfere para uma máquina. Essa máquina faz o papel do coração, bombeando e realizando todo o processo de circulação sanguínea. A partir daí, é feita a troca do órgão”, explicou.
Sobre o transporte e os cuidados necessários para preservar os órgãos, ele detalhou como funciona o armazenamento. “É uma caixa térmica, com um fluido específico, para manter a vitalidade do órgão, porque ele vai ficar um tempo sem circulação. Ao longo dos anos de doação, foram realizados estudos sobre a viabilidade de cada órgão e sobre quanto tempo ele consegue permanecer sem circulação e sem ser nutrido”, explicou.
Além das questões técnicas, os trâmites logísticos são organizados antecipadamente, com participação do governo e até da Força Aérea Brasileira (FAB), responsável por disponibilizar aeronaves quando necessário.
A enfermeira Marina detalhou como funciona essa articulação. “Confirmada a morte cerebral, a equipe mantém o sistema orgânico funcionando e faz as comunicações necessárias com a FAB. Mas esse contato é realizado pela OPO, que é a Organização de Procura de Órgãos. São profissionais ligados à Secretaria de Saúde juntamente com a Central de Transplantes”, afirmou.
Além da estrutura hospitalar e logística, os profissionais destacam a importância do diálogo dentro das famílias sobre o desejo de ser doador de órgãos. “Falar sobre a morte, falar sobre a finitude, não é um tema comum. Mas é a única certeza que a gente tem na vida. Então, se existir essa possibilidade, é importante conversar sobre isso. A minha família, por exemplo, sabe que, se algum dia eu tiver morte cerebral, o meu desejo é ser doadora. Mas não basta apenas a minha palavra. É preciso também que a família respeite esse desejo”, afirmou a psicóloga.
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