"Black mirror" estreia nova temporada na Netflix
"Troco likes". "Me segue que eu te sigo de volta". "Dá um joinha no meu canal". "Não esquece de me favoritar". "Compartilhe, por favor". Mendigar aprovação é prática corriqueira de quem vive de e para as redes sociais. Afinal, sucesso atrai sucesso. Mas e se o impacto dessa popularidade saísse do mundo virtual para o mundo real? E se passássemos a ser medidos pela nossa influência na internet?
É esse o questionamento de Perdedor, primeiro episódio da nova temporada de Black mirror, já disponível na Netflix. Em seu retorno após dois anos de recesso, o cultuado seriado britânico continua a debruçar-se sobre a influência da tecnologia no cotidiano, mantendo também seu olhar pouco otimista a respeito. E o formato de antologia. Ou seja, os capítulos não têm ligação entre si e podem ser assistidos de maneira independente.
Leia mais
50 séries que você tem que assistir na Netflix e em outros serviços de streaming
50 filmes a que você tem que assistir na Netflix
Com a ajuda dos leitores: mais 20 filmes que você tem que assistir no Netflix
O que liga cada um dos episódios, além da discussão sobre os impactos da evolução tecnológica, é aquela atmosfera de pesadelo futurista que os espectadores de longa data do seriado conhecem bem. Mas não um pesadelo no estilo Blade runner, Matrix ou O exterminador do futuro. A ficção do showrunner Charlie Brooker é muito mais premonitória – e por isso mesmo assustadora – do que robôs tentando destruir a raça humana: em Black mirror, nós mesmos estamos dando cabo dessa tarefa.
Pegue Perdedor. Bryce Dallas Howard interpreta uma mulher que trabalha para conseguir algo que ela não sabe bem o que é, algo abstrato, mas que vai lhe fazer bem. E o caminho para obter êxito passa necessariamente por ser popular em um aplicativo social que permite dar notas às pessoas em tempo real. O atendente do café foi gentil? Dê cinco estrelas para ele. O churrasco do cunhado está saboroso? Aumente a reputação dele com cinco estrelinhas. A lógica também vale para o contrário, dando poucas estrelas para quem você acha que foi desagradável de alguma forma.
Essa cotação é acompanhada ao vivo através de uma lente de contato, que mostra o nome e a nota de todo mundo. Quanto maior a nota, mais benefícios a pessoa terá, como descontos no aluguel de condomínios de luxo ou atendimento médico preferencial. Notas baixas indicam que o sujeito não está se esforçando para ser popular, o que o torna automaticamente tóxico e digno de ser banido de qualquer círculo social. Nem mesmo um assento em um voo é possível conseguir sem um desempenho satisfatório.
O problema, a personagem de Bryce irá descobrir, é que ninguém está sendo sincero na rede social. Falar o que se quer ou agir de maneira intempestiva (ser um ser humano, enfim) quase sempre rende notas baixas, obrigando todo mundo a mostrar uma vida de fantasia. O mundo virtual de Perdedor é uma eterna propaganda de margarina – mesmo que seus atores morem dentro de um infomercial do mais depressivo. E a busca pelo aumento de sua reputação virtual levará a protagonista a cavar ainda mais o fundo do poço motivacional onde já se encontra.
Se, enquanto lia esse texto, você parou para ver quantos likes seu textão no Facebook recebeu ou se sua foto malhando continua a amealhar coraçõezinhos no Instagram, não tenha dúvida: Black mirror é real.