De estudante pobre a artista mais badalado da China

Pequim – Durante o vernissage de Zeng Fanzhi, o artista contemporâneo mais badalado da China, em uma galeria de Manhattan há um ano, bilionários chineses caminhavam entre a fina flor do mundo das artes nova-iorquino. Zeng veio acompanhado de seus amigos da alta classe, e depois de um jantar em um restaurante chique de Chelsea, a caravana chinesa foi ao Park Hyatt para beber até tarde da noite no bar do hotel.

Na China, um banquete servido para 500 convidados, incluindo a neta de Mao Zedong, celebrava os 25 anos de carreira de Zeng, durante a abertura da primeira exposição retrospectiva do artista em seu país de origem, em setembro deste ano.

Suas obras adornam as paredes de museus norte-americanos, de apartamentos gigantescos em Hong Kong, e da sala de estar da casa londrina do barão da arte François Pinault, dono da Christie¿s. No Centro Ullens de Arte Contemporânea em Pequim, a exposição recebe um recorde de público que vai para ver as obras que incluem duas paisagens de cores vibrantes em telas de 10 metros de comprimento.

Os artistas chineses chegaram ao cenário artístico internacional há cerca de 10 anos, mas poucos foram tão bem sucedidos quanto Zeng, de 52 anos, e nenhum deles chegou perto dos US$ 23,3 milhões pagos em um leilão por sua versão da ¿Última Ceia¿, em 2013.

Como ele conseguiu se manter no topo?

¿Pode-se dizer que tenho muitas artimanhas¿, afirmou, com um sorriso maroto no rosto. ¿Só vendo minhas obras para quem realmente gosta delas. Então essas pessoas me ajudam a promover meu trabalho¿.

Foi essa abordagem de cultivar os colecionadores que gostam de suas obras, aliada a habilidades artísticas fenomenais, que permitiram que ele chegasse ao topo, afirmou Philip Tinari, diretor do Centro Ullens.

¿A China precisa de um grande artista, e a forma como ele agiu foi muito inteligente. Ele compreende o meio por onde suas obras circulam, a casa dos colecionadores, as instituições culturais e as galerias. Ele convida essas pessoas importantes para fazerem parte de seu sucesso e, à medida que alça voos mais altos, todo mundo se sente bem com isso¿, afirmou Tinari.

Zeng é um homem de compleição compacta, com cabelo curto salpicado de branco, sempre com um charuto cubano por perto, sentado na velha cadeira de couro vermelho em seu estúdio.

Quase sempre de calças jeans e tênis, ele veste um casaco preto de gabardine para se proteger do frio do estúdio. Uma equipe de assistentes de pesquisa trabalha no prédio feito de blocos de concreto, em uma área ocupada por artistas próxima ao centro da cidade.

Ele aprendeu a cultivar alguns gostos refinados ao longo da vida. Uma mesa com tampo de couro Hermès foi colocada em uma das pontas do escritório, que tem os dois andares decorados por uma coleção eclética de obras de arte, com vista para um jardim com árvores bem cuidadas, duas esculturas de aço de Harry Bertoia e um grande lago de carpas.

O gramado verde-esmeralda parecia brilhar sob a luz da tarde de outono. ¿Não é de verdade¿, afirmou timidamente. Sempre muito atento a detalhes e à ordem, ele se cansou da grama marrom de Pequim.

Desde seus primórdios, quando não passava de um estudante de artes pobre de Wuhan, uma cidade cinzenta às margens do Rio Yangtze, ele já chamava a atenção de professores e críticos que admiravam sua rebeldia contra o realismo socialista aprovado pelo Partido.

¿O diretor da biblioteca da faculdade me disse que se eu quisesse ver bons livros de arte, deveria ir à biblioteca da Província de Zhejiang¿, afirmou sobre os dias austeros de meados dos anos 1980. ¿Eu pedi uma licença e viajei durante três dias e noites até Xangai, e então mais três horas até Hangzhou¿. Lá, e mais tarde no instituto em Wuhan, ele descobriu o artista alemão Max Beckmann e admirou as obras de Willem de Kooning.

Quando chegou ao terceiro ano da faculdade de artes, já havia produzido 45 obras. Nenhuma delas estava nos padrões do estilo oficial, mas um professor, Pi Daojian, o encorajou a realizar uma exposição solo.

Ele havia retratado o povo. Uma figura de camisa vermelha dormindo em uma pose retorcida, com uma linha vermelha atravessando seu rosto. Outra pintura mostra quatro engraxates adormecidos à espera de trabalho.

¿Ele pintava o que via. Encontrou sua própria maneira de expressar emoção¿, afirmou Pi, durante um recente encontro com Zeng em Wuhan.

As autoridades locais não gostaram do que viram. ¿Eu fui chamado até o local onde a exposição seria realizada¿, afirmou Zeng. ¿Entrei em pânico¿. Eles fizeram inúmeras perguntas.

¿Qual é o significado das pinturas? Você está tentando fazer alguma afirmação política? Isso no rosto dele é sangue?¿, Zeng se lembra de ser questionado. ¿Eu disse que sim, era sangue, mas que aquilo não significava nada. Eles queriam saber porque as pessoas pareciam tão desanimadas¿.

A exposição foi fechada ao público; apenas estudantes de arte puderam visitá-la.

Inabalado, Zeng pintou uma série ainda mais crua de obras que mostravam a angústia de pacientes nas mãos dos médicos insensíveis de um hospital público em seu bairro. Em seguida, concentrou-se em um açougue da região, com suas enormes peças de carne congelada. Uma tela, coberta com o vermelho e rosa da carne crua, exibia o açougueiro e sua família tirando um cochilo à tarde sobre uma carcaça mal coberta.

A ousadia das pinturas impressionou o influente crítico de arte, Li Xianting. Encorajado por seu apoio, Zeng partiu para Pequim.

Lá, ele ignorou a colônia de artistas nos subúrbios da cidade, e escolheu astutamente um pequeno apartamento cheio de vazamentos no bairro luxuoso das embaixadas.

Naquela altura, o governo encorajava as pessoas a enriquecerem. Entretanto, muita gente estava preocupada depois que o governo ordenou o massacre da Praça da Paz Celestial em 1989. Zheng começou a pintar o tema que carregaria para sempre: retratos de homens e mulheres, às vezes em grupos, às vezes sozinhos, sempre de máscara. Quase sempre com sorrisos exagerados, elas escondem sentimentos de angústia.

As pessoas começaram a falar sobre ele. Em 1993, Zeng realizou sua primeira exposição solo em Hong Kong. Em 1998, uma curadora de arte em Pequim, Karen Smith, o apresentou ao suíço Lorenz Helbling, que viria a se tornar o marchand ocidental mais influente na China, representando Zeng desde então.

Em uma de suas primeiras vendas, Helbling vendeu uma pintura de Zeng exibindo oito homens e mulheres chineses mascarados a um turista norte-americano por US$ 16 mil. Dez anos mais tarde, a mesma pintura foi vendida em um leilão em Hong Kong por US$ 9,7 milhões, transformando Zeng no mais caro artista contemporâneo da China, posição que mantém desde então.

Mais adiante, Helbling foi responsável pela grande chance de Zeng: o contato com Pinault.

¿Pinault dizia que gostaria de conhecer minhas obras de perto. Eu fui de carro e no caminho ocorreu um acidente. Deixei Pinault esperando por três horas. As pessoas me ligavam e gritavam: `Cadê você?¿ Eu quase estraguei tudo¿, afirmou Zeng.

Durante a visita, Pinault comprou duas telas e queria comprar mais.

¿Na verdade, eu disse que só iria vender uma, mas como me atrasei, aceitava vender duas¿, afirmou Zeng.

As obras de Zeng estão expostas em dois palácios históricos em Veneza, restaurados por Pinault para comportar sua enorme coleção de arte. O fato de Pinault ser dono de uma de suas obras prediletas, um retrato do artista Lucian Freud, exposta na casa do colecionador no bairro londrino de Belgravia e adornada por uma moldura do século XVIII avaliada em US$ 100 mil, é o que mais agrada Zeng.

¿Eu já pedi muitas vezes para ele me emprestar o Lucian Freud para uma das minhas exposições, mas ele sempre diz não¿, afirmou Zeng. Como gesto de amizade – os dois costumam se encontrar na Europa, afirmou Zeng – Pinault concordou em enviar a obra para a exposição em Pequim.

Havia uma boa razão para a relutância. Segundo Zeng, ¿eles tiveram que fechar uma rua em Londres e montar uma grua para tirar o obra pela janela da frente¿.

* Jane Perlez

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