Quando o mundo (ou pelo menos o Brooklyn) parou por causa de uma cadelinha

Nova York – Bailey, uma goldendoodle de 2,5 anos, vivia uma vida pacata em uma quadra de belas casas de arenito vermelho, no Brooklyn... até as sete e quinze da manhã do dia 24 de outubro.

Foi quando sua dona a prendeu a uma cadeira na frente do Henry's Local, um café na Henry Street, e entrou para pedir um latte gelado.

Outro cliente entrou junto. Bailey levou um susto e pulou de lado. A cadeira caiu na calçada. O barulho a apavorou ainda mais.

E saiu correndo pela Henry Street, arrastando a cadeira atrás de si e a dona, Orna Le Pape, atrás, gritando: "Bailey, para! Não! Não!".

Bailey atravessou o cruzamento com a Carroll Street. Aí a cadeira enroscou. Ela deu um safanão, deixando a cadeira, a coleira e sua identificação para trás. Virou à direita no salão de beleza When in Rome para entrar na sua rua, a President.

Só que passou batido pela sua casa e continuou correndo.

Orna, que tem 47 anos e está em boa forma, mas não é páreo para um cachorro em disparada, perdeu Bailey de vista na quadra seguinte. O pessoal na rua, porém, gritava, dando dicas: "Ela foi para aquele lado!".

Bailey virou à esquerda e à esquerda de novo, em direção ao rio. Quando Orna chegou à Columbia Street, no extremo da Brooklyn-Queens Expressway, não tinha ninguém na rua. Ela chamou o nome da cachorra. Tentou adivinhar o caminho a seguir. Cruzou com algumas pessoas, mas ninguém a tinha visto.

Sumiu.

Toda semana, dezenas de cães e gatos desaparecem em Nova York. Os donos, arrasados, colocam cartazes por toda parte. Alguns aparecem, vivos; outros, não. Nos dias que se seguiram, Bailey, por alguma razão, se tornou um fenômeno, uma causa – e ali naquele pedacinho isolado do Brooklyn e imediações, uma estrela das redes sociais.

Agora já eram sete e meia da manhã de uma segunda, dia de aula e de trabalho, embora Orna, psicoterapeuta, só tivesse consultas no final da tarde.

Ela correu para casa, pegou o carro e começou uma busca frenética pelo animal. Ligou para casa e pediu ao filho de 14 anos que achasse fotos de Bailey (que tinha o pelo meio bege, meio marrom desgrenhado, uma barbicha escura e cílios enormes) e começasse a criar um aviso e a imprimi-lo. Voltou para casa, pegou os papéis, foi até uma copiadora para fazer mais cópias e começou a pregá-los em toda parte.

Cancelou também as consultas daquele dia, alegando emergência na família.

A todo lugar que Orna ia, as pessoas pareciam compelidas a ajudar: pediam um folheto a mais para postarem no Facebook, ou para fazerem novas cópias e colocá-las em outro ponto; ofereciam sugestões, como ligar para as clínicas veterinárias, abrigos, a polícia.

"Fui até o aterro, lá na margem do rio, e o cara prometeu continuar anunciando, sem parar, até saber que foi encontrada. Gente completamente estranha chegou para mim dizendo que ia à igreja rezar para eu encontrá-la", conta Orna.

E ela não poupou despesas: por US$149,95 se inscreveu no LostMyDoggie.com que, por sua vez, alertou 1.250 vizinhos seus para que ficassem de olho em Bailey.

E fez mais de mil folhetos. Omar, o cara da copiadora, não teve coragem de aceitar o dinheiro.

À noite, Orna se concentrava no Parque da Ponte do Brooklyn, a 2,5 km ao norte de sua casa, um local tranquilo, bom para um cachorro que detesta barulho se esconder. Das onze e meia à uma e meia da manhã, ao lado da mãe, que tinha saído de Manhattan para ajudar, caminhava pela área deserta, chamando o nome de Bailey.

Nada.

Terça; segundo dia. Orna começou a receber telefonemas de gente que disse ter visto Bailey no dia anterior.

E graças a eles pôde refazer parte do caminho que a cadelinha fez: sete e meia da manhã de segunda, perto da Ponte do Brooklyn, a 2,5 km ao norte de casa; depois, 2,5 km a sudeste da ponte, entre Nevins e Degraw. Às dez e meia, três horas mais tarde, Bailey fora vista na Henry Street, a cinco quadras de casa, mas correndo na direção errada. Ao longo do dia tinha percorrido pelo menos 6,5 km, talvez bem mais que isso.

Orna foi aos abrigos de animais no East Harlem e East New York, Brooklyn. Nem sinal.

Mais gestos de gentileza: perto do supermercado Fairway, em Red Hook, um homem a chamou e disse: "Vi que você está oferecendo gratificação. Eu tenho uma vinícola logo ali – pode anunciar como parte da recompensa uma degustação e um tour pela propriedade'."

Não se sabe por que a procura por Bailey gerou uma comoção tão grande.

E não atrapalhou em nada o fato de ela ser uma "mocinha" para lá de simpática.

"Não sei se o bairro inteiro ia se mobilizar por um cachorro com cara de bravo", questiona Orna.

Alguém mais cínico talvez ache que o dinheiro tenha a ver com a história, mas uma amiga de Orna tem outra teoria: "Nessa época de confusão e angústia com a eleição, esse é o tipo de situação de que todo mundo pode participar e ajudar, estando do mesmo lado. Todo mundo quer saber que um cachorro perdido voltou para casa."

No fim da tarde, a mãe de Orna notou que começaram a surgir cartazes à procura de um beagle chamado Edie, que vivia a três quadras de Bailey e também tinha fugido da cadeira onde tinha ficado preso, no mesmo dia que a cachorra da filha. "Achei que seria uma boa ideia unir as forças", disse. E ligou para o dono, Olly Smith. "Desculpa, não dá para falar agora. Acho que encontramos o corpo do nosso cachorro", ele disse. Edie tinha sido atropelado na Brooklyn-Queens Expressway.

Às quatro e meia da manhã de quarta, Orna acordou de um sonho que lhe dizia que Bailey estava lá embaixo, na portaria. Vai lá embaixo, ela está lá.

"Claro que não ouvi o instinto. Coisa maluca."

De manhã, ela abriu o Facebook. Em "Populares" (lista baseada em sua localização, sua rede social própria e algoritmos mais abrangentes), o tópico principal era Bailey.

Lá fora, na calçada em frente de casa, ela encontrou cocô de cachorro que parecia estar ali há algumas horas. E se parecia com o de Bailey.

"Pensei: 'E se eu recolher e levar para o veterinário analisar?' Já estava disposta a fazer qualquer coisa", relembra.

Orna cancelou também as consultas da quarta para continuar a busca. "Ouvi dizer que você tem que procurar numa área de pelo menos 5 km."

Na parte do Brooklyn em que mora há pelo menos 1.500 quarteirões em um perímetro desses.

Às dez da noite da quarta, mais de 60 horas depois que Bailey tinha fugido, Orna estava andando de bicicleta a dois bairros de casa, chamando pelo nome da cachorra, quando o telefone tocou.

"Era uma mulher, toda esbaforida, dizendo que estava seguindo a Bailey e tentando acompanhar o ritmo dela." A cachorra estava na Sackett, a poucas quadras de casa. Orna desceu a Columbia voando e deu de cara com a mulher. "Eu ia te ligar de novo porque a perdi de vista."

O telefone tocou de novo. Alguém a tinha visto na Van Brunt Street, em Red Hook.

E de novo. "Estou vendo sua cadelinha", anunciou um homem. Bailey estava na Degraw Street, indo em direção de casa.

Orna ligou para a mãe. "Nem lembro mais, mas devo ter gritado algo do tipo, 'Desce todo mundo agora!'."

Assim que o filho mais velho de Orna abriu a porta, deu de cara com Bailey no topo da escada.

Estava faminta, desidratada, emagrecera quase quatro quilos e a patinha estava sangrando – mas estava sã e salva.

Orna e a mãe começaram a avisar todo mundo que tinha ajudado na busca, inclusive o dono de Edie, Olly Smith. "Que notícia maravilhosa. Estamos muito felizes por vocês", escreveu ele.

Bailey retomou a vida normal, mas com uma diferença crucial: a cafeteria.

"Eu continuo indo lá todo dia, mas sem ela", conta Orna.


* Andy Newman

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