Um programa sobre o interior inglês é sucesso na BBC
Firle, Inglaterra – Com o canto dos pássaros no ar e um sol fraco de inverno brilhando no jardim de uma elegante propriedade rural no sul da Inglaterra, as coisas vão bem para a equipe técnica de "Countryfile", programa da TV britânica que aborda as questões campestres.
Porém, é só o apresentador John Craven começar a falar que o avião começa a sobrevoá-los e a filmagem tem que ser interrompida; o padrão se repete mais tarde, quando o trabalho é suspenso por uma van de entregas, uma serra elétrica, um gerador elétrico e o som de tiros.
Se o interior às vezes é, como diz Craven, "um lugar bem barulhento", é também uma região muito querida por milhões de britânicos que acompanham a série que vai ao ar todo domingo à noite, 52 semanas por ano, pela BBC.
"Countryfile", em termos gerais, é o programa factual mais visto do país – o que não é pouco em uma terra na qual a guerra pela audiência produziu, em 2016, um programa de namoro nos quais os participantes apareciam pelados.
Não há nada erótico em "Countryfile"; os únicos excessos na produção são as cenas bucólicas, tomadas de colinas nuas ondulantes e vales profundos.
"Acho que em nenhum outro país o povo tem essa atitude de 'dono' do interior, pelo menos não que eu me lembre", diz Craven durante uma pausa nas filmagens.
"Não possuímos nada – pelo menos não a maioria –, mas nos comportamos como se fôssemos donos de tudo."
O próprio Craven é um representante incomum à frente de um dos campeões nacionais de audiência, pois já tem 76 anos e começou a carreira quando a transmissão ainda era em preto e branco. Em 1989, passou a trabalhar em "Countryfile", depois de 17 anos de "John Craven's Newsround", um noticiário curto para crianças, o que o torna instantaneamente reconhecível para várias gerações.
Afirma que os outros apresentadores, a maioria na faixa dos trinta e poucos, cresceram assistindo ao seu programa – e garante que desmentiu a máxima do showbiz que não se deve nunca trabalhar com crianças e/ou animais.
"Foi o que fiz a vida toda", acrescentando que não tem planos de se aposentar.
Como muitos, Craven ficou surpreso com o sucesso da atração, cujo público-alvo eram os agricultores. Em 2009, o pessoal da programação resolveu arriscar e mexer na grade de horários, tirando-o do fim da manhã do domingo para o início da noite, no horário nobre.
Na segunda após a troca, Craven conta que o controlador ligou às onze e pouco para anunciar que sete milhões de pessoas tinham visto o episódio. "Todo mundo começou a pular no escritório e tem sido assim desde então", conclui.
Em um fim de semana em fevereiro, bateu nos 7,67 milhões de telespectadores; até então a melhor marca tinha sido 7,25 milhões, da novela "EastEnders", e 5,29 milhões, do noticiário das seis.
Programas sobre a natureza, como "Planet Earth", podem ser sucessos estrondosos por aqui, e o apreço pela vida rural se reflete no cenário bucólico da novela de rádio mais longeva da história do país, "The Archers".
A audiência de "Countryfile" se divide mais ou menos ao meio, entre o público urbano e o rural, e inclui até membros da família real (confirmada por Craven).
"Countryfile" se orgulha de fazer um trabalho de filmagem de qualidade e abordar os aspectos mais difíceis da vida rural, como a demência e a violência doméstica, além de ter um ritmo e um estilo únicos.
"Muitas atrações podem ser criadas de olho na audiência, mas aí é que está o erro. Trabalhando neste programa isso fica bem claro", afirma Nick Small, um dos diretores.
A verdade é que o público cativo raramente tem uma surpresa ou descarga forte de adrenalina quando se acomoda no sofá, no finzinho da tarde de domingo. "É lento, é agradável. Não tem essa coisa de 'Será que John vai sair dessa com vida?'", brinca ele.
As filmagens que visitei, em fevereiro, mostram que o programa aborda mesmo os mais diversos assuntos. Craven estava na Charleston House, aqui em Firle, que se tornou a casa de campo dos artistas Vanessa Bell e Duncan Grant.
A mansão, decorada com suas obras, é uma opção de fuga de Londres e do serviço militar de Grant, que foi um adversário consciencioso durante a Primeira Guerra Mundial.
As filmagens ocorrem duas semanas antes de irem ao ar e os produtores dizem, timidamente, que cada episódio custa uma fração do que a maioria dos concorrentes no mesmo horário.
A exposição, porém, inevitavelmente gera críticas. Em 2015, o Daily Mail, tabloide de mercado médio, publicou um artigo de Christopher Booker, afirmando que "Countryfile" "embeleza, sentimentaliza e censura a vida no campo, ao mesmo tempo em que se alinha com os 'ambientalistas' e ativistas animais, que comandam grupos ecológicos poderosos".
Por outro lado, outro tabloide, o Daily Express, frequentemente destaca as ocasiões em que os telespectadores se chocam com imagens de animais mortos ou qualquer coisa minimamente perturbadora. Quando um desenho feito recentemente por uma das estrelas, Ellie Harrison, sem querer adquiriu um formato levemente fálico, sua manchete foi: "Fãs chocados com o pênis desenhado por apresentadora em programa familiar".
As alegações de Booker foram rechaçadas pelo editor executivo do programa, Bill Lyons que, apesar disso, não quer se envolver em outra grande disputa que surgiu quando da mudança no horário de exibição, ou seja, antes mesmo de ocupar a posição atual.
Em 2011, a justiça decidiu que a BBC tratou de forma discriminadora a apresentadora Miriam O'Reilly, por causa de sua idade, quando a dispensou.
Lyons se orgulha porque, em uma época em que a TV é cada vez mais compartimentalizada, "Countryfile" é uma unanimidade nacional, atraindo um público diverso. "Os mais jovens confessam no Twitter ter o hábito 'condenável' de assistir ao programa", se diverte.
Com o sucesso no país de origem mais que sacramentado, "Countryfile" agora está mais acessível aos norte-americanos graças ao pacote de assinatura chamado BritBox, uma parceria entre a BBC e sua concorrente comercial a ITV.
Para Lyons, porém, o sucesso se deve ao fato de ser um programa tipicamente britânico. "Conheço bem a América do Norte e sua paisagem é maravilhosa, mas não muda muito, principalmente se você está passando de carro pelo Meio-Oeste ou o Texas", ressaltando o significado britânico da expressão "não tem mais fim".
E acrescenta: "Já no Reino Unido, você nota diferenças perceptíveis a cada três, quatro quilômetros."
"Os britânicos não são dados a exibições públicas de patriotismo, mas nos orgulhamos em silêncio das coisas que fazem o nosso país tão 'britânico' e a paisagem é uma delas."
Apesar dos muitos anos como apresentador, ou justamente por causa deles, Craven concorda. "Sempre digo que a estrela do programa é o interior."
"E se por acaso você não estiver interessado no que eu digo, vai ter sempre uma paisagem magnífica às minhas costas."
Por Stephen Castle